Os cromos da Panini são uma espécie de droga. Há fábricas a trabalhar 24 horas por dia, vendedores a racionar, gente a acordar de madrugada para se plantar à porta dos quiosques, burlas na Internet, adultos a telefonar para papelarias como quem liga para o dealer para saber se há “produto” disponível. Porque não são as crianças quem mais compra cromos. São os adultos
Hoje trago cromos. Ou melhor, não trago.
Há quatro semanas que, nesta modesta casa, se procuram carteirinhas do Mundial. Uma só que seja. Não pedimos a lua, nem sequer um Presidente competente para o Benfica. “Carteirinha” e não “saqueta”, como agora parece que se diz. A saqueta serve para conservar pozinhos farmacológicos do tipo Aspegic ou cocaína. A carteirinha é outra coisa: o envelope sagrado onde repousa o autocolante a que chamamos cromo, esse pequeno milagre de papel onde a infância futebolística habita.
Mas é essa a explicação. Faz sentido dizer saquetas. Os cromos da Panini são mesmo uma espécie de droga. Há fábricas a trabalhar 24 horas por dia, vendedores a racionar, gente a acordar de madrugada para se plantar à porta dos quiosques, burlas na Internet, adultos a telefonar para papelarias como quem liga para o dealer para saber se há “produto” disponível. Tudo isto por causa de quadradinhos com imagens impressas de futebolistas. Quem um dia disse que o homem é um animal racional, não teve em conta a possibilidade de ele vender a alma por um médio-defensivo da Arábia Saudita.
Temos andado por todo o lado. Os miúdos e eu. Já batemos toda a papelaria, quiosque e tabacaria desta cidade. Na manhã de Sábado passado, só no eixo Lumiar-Alvalade, percorremos os seguintes estabelecimentos: Papelaria Tabacaria — Brindes Santo António, ali na Marquesa de Alorna, perpendicular à Avenida da Igreja; Tabacaria e Papelaria Brasil, no cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida do Brasil; Tabacaria Papelaria Marta, do outro lado da rua; Tabacaria Brasília, na Avenida do Brasil, sentido descendente; e, por fim, a Tabacaria Artemisa, na Avenida Rainha Dona Amélia, Lumiar.
Nada.
Nem uma carteirinha. Nem sequer aquele restinho miserável de esperança que costuma ficar no fundo dos caixotes de cartão. E vi crianças a entrar nesses lugares. Crianças que perguntavam, com olhos de Primeira Comunhão, se havia cromos. E ouvi o mundo a dizer “não.”
Na Artemisa — nome sugestivo para quem anda à caça — o Sr. Paulo, que é homem de comércio e, por isso, afeito a um certo tipo de esperança disciplinada, garantiu-me que o problema se resolveria ainda esta semana. Há uma ruptura no inventário, dificuldades de distribuição, procura acima do normal, enfim, todo esse aparato lexical com que o mundo tenta explicar a uma criança que a vida é uma fraude e que não há cromos. A tal semana chegou hoje a meio. E nada.
Eu acredito no Sr. Paulo. O Sr. Paulo é um homem honesto. Mas o Sr. Paulo não disse tudo. Foi preciso que a menina da Papelaria Santo António confirmasse o que eu já sabia, mas não queria ainda dizer em voz alta: não são as crianças quem mais compra cromos. São os adultos.
Sim, os adultos. Essa raça cretina que, desde o Capitão Gancho, teima em estragar sempre tudo a toda a gente. São os pais, os avós e, pior ainda, maiores de idade sem descendência cromística conhecida em nome de quem possam comprar carteirinhas por procuração. Compram às caixas. Às pazadas. Na Sexta-feira, na Papelaria Tabacaria – Brindes Santo António, receberam-se dez caixas de manhã e mais cinco durante a tarde. Voaram: quinze doses, quinze compradores. Uma dose por pessoa. Ninguém tem dinheiro para nada, mas 75 euros para a ganância há sempre.
Que o diga o pequeno Gonçalo, o rapazinho que descobrimos à porta da Tabacaria e Papelaria Brasil com um molho de repetidos na mão. O Gonçalo conseguiu-os na tal Sexta-feira gorda. Segurava-os como quem segura um iogurte natural. Enquanto nós atravessávamos Lisboa como derrotados, lá estava ele, ali, calmo, quase alheado, como se aquele molho de repetidos lhe tivesse vindo parar às mãos por um qualquer acaso meteorológico. Era bom rapaz, certamente. Mas bolas, ao menos que saltasse triunfante, que nos esfregasse os cromos na cara e se risse com malvadez.
E o Oliveira? O Oliveira é colega do meu filho mais velho. Foi burlado. Pobre Oliveira. Quer dizer, imagino que tenha sido o pai o alvo da trapaça. Como quase eu ia sendo — não fosse a Catarina mandar-me parar imediatamente. A Catarina ouve a rádio Observador a caminho do trabalho. E sabe — porque ouviu — que instagrams, facebooks e afins estão inundados de esquemas para ludibriar inocentes como o pai do Oliveira e eu.
Quando, há duas semanas, o Pacheco Pereira escreveu no Público sobre a infantilização dos adultos em Portugal, estava, naturalmente, preocupado com os assuntos maiores com que normalmente se preocupa: o Estado, a publicidade, a banca e essa mania contemporânea de chamar “jovem” a uma pessoa com idade para ter filhos, dores nas costas e candidatar-se à Presidência da República. Tinha razão, coisa que folga muito em ter. Mas esqueceu-se dos cromos.
Não há imagem mais eloquente dessa infantilização do que a de uma criança que chega à papelaria, com uma nota toda transpirada na mão esquerda, e descobre que os cromos desapareceram durante a manhã, comprados por homens de barba por fazer e outros cidadãos respeitáveis que, perante a caderneta do Mundial, deixam de reconhecer qualquer limite entre a infância e a apropriação de bens escassos.
De grandes apertos nascem grandes soluções. Foi assim que nasceu a R.A.P.A.!, Rede de Amigos Panini Alerta! Disse “grandes soluções“, mas poderia não o ter dito. Trata-se de um acto desesperado. Como o nome indica, é uma organização clandestina, familiar e altamente especializada, composta por pessoas unidas por laços de afecto e desespero, cuja missão consiste em patrulhar certos estabelecimentos especializados em busca de carteirinhas desaparecidas.
Da R.A.P.A.! já fazem parte a minha sogra, o meu pai e o meu irmão Marcos. Outros poderão juntar-se. Teremos informadores em Campo de Ourique, Alvalade, Santo Tirso, Vila do Conde, Caldas de Vizela, Caniço, Funchal e talvez até na Linha de Sintra. Não é bonito, eu sei. Mas é o mundo que temos.
Venha daí, caro leitor. Ajude os meus filhos. Seja amigo. Seja R.A.P.A.!
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.