O que move o adepto é a fibra têxtil. Os jogadores passam. Entram, saem, beijam o emblema, fazem juras, agradecem à estrutura, partem para Manchester, Paris, Madrid, não interessa. A camisola fica. A camisola é a viúva que não se casa outra vez. É isso que o adepto procura quando vê a novidade espreitar: não quer o novo, propriamente. Quer que o novo lhe devolva o que perdeu. Quer alguma coisa que permaneça. Quer uma camisola que seja parecida com a camisola de quando era criança e o futebol era futebol.
Esqueçam resoluções tele-novelescas sobre o destino dos treinadores. Esqueçam até o nosso great american disaster favorito, chamado Mundial, esse teatro do absurdo que até Eric Cantona acabará por amar. O povo quer outra coisa. O povo quer a nova camisola do Benfica.
Não há acontecimento igual. Os subterrâneos da internet antecipam as novas camisolas com fugas de informação. Nos fóruns e nos cafés — enquanto existirem cafés — os aficionados multiplicam-se em discussões inflamadas sobre golas, tons de vermelho, a grossura das riscas, o desequilíbrio dos patrocínios.
O adepto é vítima de um dos paradoxos mais cruéis do futebol moderno: o novo equipamento é sempre julgado pela sua capacidade de parecer antigo. Os levianos dirão: “revivalismo”; os publicitários dirão “tendência”; os infelizes dirão: “retro”. Não. É mais grave. É outra coisa. O que está em causa é a crença profunda e justíssima de que uma camisola com traços de outros tempos possa trazer consigo um futebol de outros tempos. Que de um revivalismo surja a oportunidade de, realmente, reviver qualquer coisa que valha a pena ser vivida. O que, no caso do Benfica, como se sabe, é uma pulsão particularmente assassina.
É evidente que os departamentos de marketing dos fornecedores de equipamentos sabem disto. Não são inocentes. Também eles andam pelos fóruns e pelos cafés; e pedem descafeinados. Também eles são capazes de interpretar os padrões. Mas há um propósito em não dar ao adepto o que o adepto procura. É um propósito cretino, mas eficaz, e consiste em mantê-lo com sede.
E assim vão-se dando umas migalhas. Ou a luz na sombra do sol que Bernard Sumner cantava em True Faith. Como assim? Uma gola aqui. Um certo tom de vermelho acolá. Um eco do que em tempos foi inteiro. Nunca a camisola definitiva. Apenas doses calculadas de incompletude. Não o sol inteiro; apenas the light in the shade of the morning sun. Qualquer coisa que consola, mas não restitui. Ao que parece, este ano, essa sombra luminosa cabe ao trifólio original da Adidas na camisola alternativa.
Num ecossistema que faz da novidade de mercado a sua razão de existir, o apaixonado pela bola recebe o que é novo como maneira de preencher um vazio. Persegue a novidade, como Marty McFly persegue o passado para resolver o futuro. Quer, no fundo, que o novo restaure o velho que o alimenta.
A descrição oficial da camisola, no sítio da loja do Benfica, é quase comovente no seu esforço de profundidade. Diz-se que o equipamento se inspira no Benfica Campus, “um dos lugares mais especiais para o Clube”, e que ali se constrói a “identidade Benfiquista”.
Segue uma lista de nomes: Florentino, Rúben Dias, Gonçalo Ramos, João Neves, António Silva, Nélson Semedo, Ederson, João Félix, Gonçalo Guedes, Victor Lindelöf. Ocorre perguntar onde está Bernardo Silva. (Talvez perdido. Talvez para sempre.) Mas ocorre, sobretudo, reparar que, lido o rol, a palavra “identidade” começa a tremer.
Ao celebrar o Benfica Campus, a mais frenética antecâmara aeroportuária em todo o país futebolístico, o que a camisola celebra é a economia de um clube que teve a ousadia de transformar essa identidade num activo pronto a sair assim que possível.
E ao adepto, coitado, resta-lhe juntar cem euros, comprar uma coisa que promete permanência, mas que já nasce ideologicamente como homenagem ao trânsito. É a eternidade possível. Mas vale vesti-la e esperar que tudo corra pelo melhor.
É triste, eu sei. Mas é o que temos: e há coisas piores. Para a semana continua.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.