Prometi uma coisa e vou fazer outra. Tinha garantido aos leitores continuar a conversa da semana passada sobre emblemas e outras veneráveis minudências do Benfica. Só que de vez em quando a realidade entra pelas promessas adentro. É a vossa sorte. Cabo Verde empatou com Espanha. Perante isto, falar de câmaras-de-ar heráldicas e trifólios da Adidas seria uma forma de cegueira.
Já tinha entrado neste Mundial pela porta certa, que é outra maneira de dizer a porta possível, ou a porta das traseiras, não pela de Portugal, certamente — ainda hoje convalesço do Coreia-Japão de 2002 —, nem pela porta das grandes selecções, essas máquinas de produzir inevitabilidades, mas por aquela onde deixam entrar as selecções pequenas.
O que me levou a tal sítio foi, confesso, um ensejo de frivolidade. A 4AD, num desses felizes cruzamentos entre música, futebol e fetichismo têxtil que confirmam a ascensão da camisola de jogo a objecto cultural total e parecem feitos para apanhar pessoas como eu, lançou uma camisola da Escócia e dos Cocteau Twins. Pronto. A Escócia teria de ser a minha selecção.
Mas a questão não é a Escócia. A questão é o Mundial dos Pequenitos, que é, no fundo, o único Mundial que interessa.
Nessa competição subterrânea, esse campeonato moral onde pontificam nações como o Haiti, o Iraque ou a Bósnia-Herzegovina, a proeza de Cabo Verde não me fez trocar de selecção — continuo com a Escócia. Mas fez uma coisa melhor, que foi ter dado razão ao meu critério. Ao contrário do que se possa imaginar, o Mundial não começou com México x África do Sul, mas, anteontem, quando uma selecção pequena disse a uma selecção grande: onde é que pensas que vais?
Espanha. Não apenas a Espanha futebolística, mas a Espanha histórica, habituada à ideia de atravessar o mundo como se o mundo fosse um tabuleiro de Risco. Cabo Verde não venceu, e ainda bem. A vitória teria sido um daqueles fenómenos da ordem do sobrenatural. O empate foi uma barricada, um bloqueio. Não é que Cabo Verde tenha conquistado Espanha. Fez melhor: impediu Espanha de o conquistar.
Há nisto uma justiça poética que dispensa explicações, embora eu a vá explicar na mesma. Como entusiasta dos Davides deste mundo, e morador na cidade-sede da CPLP, não tenho como não ver naquele 0-0 uma pequena insurreição lusófona. Dá vontade de sair à rua com cachupa numa mão e Strela Kriola na outra, enquanto Os Tubarões tocam na estereofonia. O leitor dirá que exagero. Mas o leitor, por vezes, tem pouca imaginação.
O que aconteceu na Segunda-feira foi uma dessas partidas da Providência. O gigantismo grotesco deste Mundial, essa gula planetária de Infantino, abriu sem querer uma fenda. E Cabo Verde entrou. Infantino quis o mundo inteiro. E o mundo, ingrato, fez-lhe a vontade.
Vozinha é, evidentemente, o herói que esta história merecia. Toda a gente anda a escrever sobre ele, e faz muito bem: 40 anos, guarda-redes do Chaves, sete defesas, melhor em campo, a elevar o 0-0 à espessura de um acontecimento. Não se trata apenas de Espanha. Cabo Verde empatou com a própria lógica do torneio: com o dinheiro, as casas de apostas, os comentadores, os patrocínios, as televisões. Foi excepcional porque foi inútil no sentido mais nobre da palavra. Não resolveu nada. Apenas existiu contra o previsível.
Ainda este fim-de-semana, ouvi alguém perguntar a alguém que nacionalidade gostaria de ter se não fosse português. “Cabo Verde”, responderam sem hesitação. É natural. Cabo Verde exerce uma autoridade secreta sobre a imaginação portuguesa. É uma hipótese de felicidade. Tem o encanto magnético dos lugares que são declinações da vida eterna.
Mas agora foi a vez de Cabo Verde cumprir um sonho. Pode não fazer mais nada. Pode até perder os próximos jogos todos. O Império construiu uma máquina para se celebrar a si mesmo. Cabo Verde esgueirou-se lá para dentro e deu ao Mundial a frase que lhe faltava: não passarão.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.