Para quem gosta de futebol em Portugal, aderir à causa da selecção é sempre uma espécie de contrafacção do sentimento clubístico. É aquela altura em que todos os que não gostam de futebol, não ligam a futebol, dizem mal do futebol, aparecem de cachecol do Continente a dizer coisas como “palhaço”, “fora-de-jogo”, e, até mesmo, “golo”. Professoras de Geografia de sessenta anos proclamam: “A equipa de todos nós”. E o adepto que, jornada após jornada, sobrevive ao clube por que torce à força de antipiréticos fica acabrunhado. Há ali uma espécie de traição à ordem natural das coisas. Justificadamente, desconfia. Muito prudentemente, põe-se de parte.
Não existe no nosso país aquela alucinação argentina, aquele verdadeiro entusiasmo inglês, aquela coisa embriagada, pueril, totalizante. E é pena. Bem se tentou em 2004. Foi preciso um vídeo motivacional de um mau treinador brasileiro, mas a nação aplicou-se. Durante esse Europeu, quando os chinelos de meter o dedo pareciam anunciar uma nova civilização atlântica, andámos todos a fingir que o equívoco cromático imposto em 1910 nos dizia alguma coisa de profundo.
Correu mal. Mas já tinha corrido pior dois anos antes, no imperdoável Coreia-Japão. Ainda não havia bandeiras nas janelas. Havia apenas a selecção, nua diante da sua própria estolidez. Alguns de nós ainda não regressaram inteiramente de Suwon.
O mal sempre foi uma coisa mais íntima, mais portuguesa, mais nossa. E há qualquer coisa na selecção portuguesa de futebol que nos irrita a todos, ainda que de maneiras diferentes.
Tomemos o jogo de terça-feira. Uma crónica sobre o Portugal-Usbequistão deveria começar, fatalmente, com um “Usbequisquê?”. Exactamente. Contra essa sorte de países, onde o desporto nacional consistirá nalgum tipo de luta medieval, no arremesso do carneiro ou no derrube cerimonial de plátanos, o resultado nunca poderia ser menos do que dez a zero. Cinco é pouco. Cinco é uma cortesia protocolar.
Não deveria ser preciso explicar, mas eu explico na mesma, porque há sempre um contabilista dentro de nós. Pelo miserável e contemporâneo critério do valor de mercado dos jogadores, os dois onzes entraram ontem em campo separados por uma relação de 8,5 para 1. O onze inicial de Portugal valia seiscentos e qualquer coisa milhões; o do Usbequistão, setenta e qualquer coisa (sendo que, desse total, cinquenta pertenciam a Khusanov, o defesa central que joga no City). Segundo este nefasto raciocínio, Portugal deveria ter ganho por quarenta e três a zero. Menos do que isso não seria golear, seria perdoar.
É claro que somos nós que nos irritamos a nós próprios e, por isso, faça a selecção o que fizer, nunca ninguém estará verdadeiramente satisfeito com ela. Se perdemos, confirmamos a nossa decadência. Se empatamos, é uma vergonha. Se ganhamos por um, não convencemos. Se ganhamos por cinco, faltaram outros cinco. A selecção nunca joga apenas contra o adversário. Joga contra essa neurose nacional que nos assombra desde Alcácer-Quibir com escala em Saltillo e passagem pela mão direita de Abel Xavier. E quando, em 1966, descobrimos que podíamos mesmo ser grandes, torcer por Portugal tornou-se uma das mais previsíveis e constantes formas do embaraço nacional.
Claro que também irrita a tutela perpétua de Cristiano Ronaldo. Um atleta que é um regime. E é admirável que só quando já se ultrapassaram todos os limites do razoável, comentadores e jornalistas desportivos se tenham lembrado de escrever alguma coisa sobre o assunto. Como se, agora, se tivesse chegado à conclusão de que ter D. Sebastião em campo a tempo inteiro é só outra maneira de jogar com um fantasma a ponta-de-lança.
Irritam-se também aqueles que acham que o desdém pela selecção é pose. E também os desdenhosos se irritam por não conseguirem manter a pose (e no fundo se importarem). Tal como os ingleses e os argentinos também nós nos deixamos absorver pelo fenómeno. Só que à nossa maneira retorcida.
E, depois, claro, há o futebol. Porque, acima de todas as coisas, Portugal pratica um futebol amofinado. Igualzinho à caricatura que dele fizeram os Simpsons em 1997. Procurem. A bola circula, circula, circula, e não é preciso ser Homer Simpson para adormecer diante daquilo. O pináculo desse génio anestésico foi o Euro 2016.
Lembrar-se-ão com certeza. Ao que parece, Portugal ganhou o torneio. Está escrito, logo deve ter acontecido. Foi uma espécie de piada, elaborada de empate em empate, até ao chouriço final. Um paio ganho com um chouriço. O que irritou mais nem foi a vitória; foi o travo a impostura.
E a Geração de Ouro é, como é evidente, o conjunto de jogadores mais irritante de sempre. Tínhamos tudo e esse tudo incluía a ilusão de que a beleza acabaria por produzir justiça. Não produziu. Produziu saudade, que é a forma nacional de perder com a sensação (irritante) de que se deveria ter ganho.
O problema da selecção é que nunca é só a selecção. É Portugal de calções, pouco à vontade em trajo curto, exposto perante o mundo, com talento suficiente para se julgar predestinado e insegurança bastante para desconfiar da própria predestinação.
É uma dor de cabeça. E os grandes torneios, em que ficamos assim, diante de todos, vestidos de nós próprios, não ajudam nada. Saudades do Itália ’90.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.