NOTA: este texto é a segunda parte da crónica “A Eternidade Possível das Camisolas do Benfica”, publicada a 10 de Junho de 2026
Se o adepto não tem outro remédio senão embarcar na incompletude ontológica da camisola, o mesmo não acontece em relação ao emblema. O emblema é tudo.
Em 2024, numa das sessões da última revisão estatutária esteve-se uma tarde inteira nisto. Uma tarde inteira. O leitor imagine: sócios, papéis, microfones, paciência, emendas, minúcia. Insistiu-se, deliberou-se, votou-se, aplaudiu-se e, por fim, lá se seguiu em frente confiando na boa vontade da humanidade. O assunto parecia resolvido de uma vez por todas: as garras da águia acabariam finalmente por sair da borracha do pneu onde alguém, num dia infeliz, a resolveu empoleirar.
No dia 8 de Março de 2025 os estatutos foram aprovados. Mas eis que, nos equipamentos da época 25/26, o emblema continuou errado. Houve quem respirasse fundo. Houve quem concedesse. Talvez fossem prazos. Talvez fossem contratos já fechados. Talvez a Adidas, os calendários industriais, os armazéns, as linhas de produção. Esperava-se, portanto, pela época seguinte.
Mas não. Em 2026/2027 ficará tudo na mesma. E ao emblema correcto, que vai fazendo umas aparições em edições especiais da loja do Benfica, chamam-lhe “retro”. Retro. Eis uma palavra que devia ser expulsa de todos os clubes com história. “Retro” é o nome que a ignorância dá à fidelidade. É o modo como o contemporâneo confessa que já não compreende o futuro. O emblema correcto não é retro. É correcto. Ser correcto não é uma tendência. Não é revivalismo. Não é gosto ou falta dele. É obediência.
Vou tentar ser claro, tal como os estatutos do Clube são claros. A águia está sobre a faixa e com as garras nela assentes. Só isto. Não é uma charada bizantina. Não exige doutoramento em heráldica, iniciação maçónica ou um mestrado em estudos visuais. Está lá escrito. Fixado no papel. Há décadas. A águia sobre a faixa. As garras na faixa. A faixa com a divisa. E Pluribus Unum. De muitos, um.
Se isto vos parece uma alucinação quixotesca, conheçam Alberto Miguéns, historiador compulsivo do Benfica que anda, há décadas, a labutar nas catacumbas do benfiquismo documental. Onde uns vêem “imagem de marca”, ele vê património. E onde outros vêem “actualização gráfica”, ele vê crime simbólico.
Para Miguéns, o problema não é apenas o lugar da águia. É também o próprio desenho da águia. Por uma questão de pudor editorial, não vos digo aqui a qualificação que faz do bico, das asas e das patas do desenho actual. Está tudo no seu blogue, fatalmente chamado Em Defesa do Benfica. (E, claro, há ainda as estrelas, esse acne dourado da vaidade estatística.)
Segundo Miguéns, quando, em 1995 e 1996, apareceu uma primeira alteração do emblema, o próprio foi tentar perceber quem se atrevera a mexer. Encaminharam-no, então, para Miguel Bento, que lhe terá explicado que, para poupar dinheiro, tinham pedido ao senhor Altino, da reprografia, que desenhasse um emblema.
O leitor pare aqui. Respire. Sinta a grandeza do episódio.
O emblema do Sport Lisboa e Benfica entregue ao senhor Altino da reprografia. Nada contra o Sr. Altino. Seria, certamente, um homem sério e honrado, um benfiquista dos antigos. O problema é ter-se achado razoável entregar-lhe o emblema.
A resposta de Miguéns ficará para a história: “Emblema? Isto é um borrão, não é um emblema.” A frase é perfeita. Devia estar gravada em mármore, à entrada do departamento de comunicação.
Miguel Bento terá recuado em 1997 e, um ano depois, terá reaparecido “todo lampeiro” com o actual emblema, agora alegadamente feito por um desenhador. Foi esse senhor, cujo nome não sabemos, que posou a águia, “de perna aberta”, sobre a roda da bicicleta. Mais valia o desenho do Sr. Altino da reprografia.
O problema é heráldico antes de ser nostálgico. A heráldica é uma disciplina da fidelidade. Ensina que os símbolos têm uma gramática própria e que alterar a relação entre os seus elementos pode mudar o sentido do conjunto. No emblema do Benfica, a águia não está ali para pousar onde calha: está ali para elevar a divisa. É o centro nevrálgico do conjunto. Tirar-lhe esse ponto de apoio não é apenas reposicionar uma ave; é rebaixar uma ideia. Ao agarrar a divisa, a águia agarra tudo; sem isso, sobra um amontoado de elementos visuais sem ordem nem hierarquia.
Ao deslocar a águia para a roda, ou para o pneu, ela deixa de se apoiar na divisa e passa a apoiar-se num elemento secundário. Um pneu, feito de borracha. Ora, uma garra não se firma na borracha; rasga-a.
No sítio oficial do Benfica, na página dedicada ao emblema, a certa altura diz-se que, “em 1999, é ligeiramente reformulado respeitando, ainda assim, as linhas originais. Ganhou, nessa alteração, um reposicionamento da águia.” O “ainda assim” é, provavelmente, a parte mais exacta da frase. É uma daquelas formulações de quem sabe que houve uma cedência. Como quem diz: talvez tenhamos feito asneira; mas, vá lá, ainda ficou reconhecível. Sobre a utilização do verbo ganhar neste contexto prefiro não dizer nada.
Continua lá tudo, é verdade. Mas é um tudo à David Lynch. Daquele tipo de realidade que aparenta estar bem, mas que sofreu uma torção e ficou ligeiramente ao lado do mundo. Eis a alegoria.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.