Na sua crónica de Domingo no Observador, o meu amigo Tiago Cavaco serviu-se do bisturi aristotélico para separar potência de humanidade e declarar a morte do futebol. Fê-lo a propósito deste Mundial e escolheu os dois do costume.
Para o Tiago, os essencialistas do futebol — gente como nós, Pasolini ou Francesco Totti, para quem tudo começa num “homem que usa os pés para chutar uma bola” — são criaturas desprezíveis porque, segundo ele, preferem Messi — ou seja, identificam na perfeição funcional do argentino a essência do jogo. E, pior, não percebem que aquilo que há de trágico, fabuloso, positivamente indecente no futebol está hoje na teimosia de quem já não o tem nos pés. E então proclama: o futebol está morto, Cristiano Ronaldo vive.
O Tiago tem razão. Mas também não tem.
Que há qualquer coisa de errado com Messi, disso não temos dúvidas. Qualquer coisa de separado, como se a potência se tivesse soltado da pessoa e o argentino fosse apenas habilidade desencarnada. Está certo. Só que (usando a terminologia aristotélica) potência é uma coisa e essência é outra: o essencialista escrupuloso sabe distinguir uma da outra. E percebe que tanto Messi como Cristiano Ronaldo são filhos do mesmo desastre a que um dia alguém resolveu chamar futebol moderno.
Messi, porque só aquela pura potência parece servir de paliativo aos que sofrem das dores do VAR e da Lei Bosman; Cristiano Ronaldo porque elevou a um patamar inaudito o móbil financeiro que justifica todo o aparato do futebol actual.
A escolha entre um e outro não resolve os problemas de ninguém. Messi não tem, nunca teve, nem há de ter graça absolutamente nenhuma. Cristiano Ronaldo não serve. Messi é o futebol sem futebolista. Ronaldo é o futebolista sem futebol.
Ao contrário do que o Tiago acha — e isto é o que eu quero dizer — o futebol não está morto. O futebol está doente. É diferente. O Tiago, que é protestante, ao preferir Cristiano Ronaldo a Messi, dá uma resposta de tipo católico. Eu, que sou católico, ao rejeitar os dois, dou uma resposta de tipo protestante. Neste assunto, nem a pureza gnóstica do Lionel-Messismo, nem a Roma decadente do Cristiano-Ronaldismo, mas a pequena heresia do Rafa-Silvismo.
Quando, em Setembro de 2022 — a poucos meses do Mundial do Catar — Rafa renunciou à Selecção Nacional de futebol, a razão oficial foi do “foro pessoal”, do “momento da carreira” (é assim que esta gente fala). Para entender Rafa foi preciso Ricardo Quaresma falar de si, mas a propósito de Rafa: quando um jogador está em grande no clube e chega à selecção para ser só mais um, começa a perguntar-se: “o que estou aqui a fazer?”
E é também o que pensa o adepto quando dá por si, às duas da manhã, de olhos raiados de sangue, diante de um grupo de rapazes em sub-rendimento a gravitar em torno de uma figura cada vez mais incompreensível. É evidente que, se o Tiago tivesse visto o Portugal-Colômbia de Sábado passado, compreenderia isto melhor. Mas o Tiago é pastor e tinha de estar no culto dominical no dia seguinte. Nós, que vimos o jogo, sabemos que não ficámos acordados por essência nenhuma. Nem por potência nenhuma. Nem por ninguém em particular (pronto, talvez por João Neves). E sabemos, também, que há qualquer coisa de humilhante naquela fidelidade; só que nós não temos opção; o adepto é um homem sem saída.
Rafa é o anti-Ronaldo. Não pelas qualidades futebolísticas que tenha ou deixe de ter. Nem por uma qualquer ideia de pureza — embora isso possa existir. Rafa é o anti-Ronaldo porque fez aquilo que Cristiano Ronaldo e o adepto, cada um pelos seus atendíveis motivos, não conseguem fazer: abdicar.
Não se trata, portanto, de escolher entre Messi e Ronaldo. Trata-se de defender o limite contra os dois. O que define a essência do futebol é discussão para outro dia. Sabemos, pelo menos, que não é a perfeição sem homem, nem o homem elevado a monumento. Seja o que for, passará também por saber que há uma altura em que o jogador deve sair para que o jogo possa continuar sem ele.
Rafa percebeu. Cristiano Ronaldo não. O adepto também não. Já o Messi, é como se não existisse.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.