22:03: soa o despertador. Sim, estou a falar do apito final do Portugal-Espanha. Para quem tem dificuldades em dormir, Portugal excedeu-se na arte do atordoamento. Só durante a primeira parte contabilizei quatro bodiões. Quase tantos como o espectador médio numa reposição de Vale Abraão no Nimas. Desculpem-me a comparação com o cinema de Oliveira, esse ao menos é literário e é belo. Apontem: “pescar bodiões” — é como os madeirenses chamam ao gesto involuntário da cabeça que cai para a frente, como se o tal peixe tivesse mordido subitamente o anzol de uma linha presa ao crânio. Dizem mal dos americanos quando se armam em americanos e começam a sugerir maneiras de tornar o futebol mais interessante. Pois bem: a Selecção deu-lhes razão e conseguiu a proeza de fazer do futebol argumento contra o futebol.
Dizer isto devia ser fácil. Há quem o faça — eu, por exemplo. Mas o que eu digo não racha lenha. O que interessa, pelos vistos, é o que dizem os que por lá andaram. Porque, mesmo que se tenha razão, o critério de só-se-pode-pronunciar-quem-um-dia-transpirou-em-campo é o critério reinante. É uma opinião imbecil. Mas é reinante. E, como todas as imbecilidades reinantes, tem o seu regime.
Só que a distância ajuda na perspectiva. É mesmo assim: os castelos erguiam-se nas colinas e os observatórios também. Ao longe tem-se mais alcance. Ou ainda: para não ficar aquém, é preciso estar além.
Daí que, quando Ricardo Quaresma fala, normalmente fala bem. O Quaresma é como eu. Não é que eu fale bem: o Quaresma é que também está fora. Está além. Como assim? Bem. Quaresma esteve dentro como poucos: foi campeão europeu, jogador da Selecção, autor de golos que pertencem à mitologia recente do futebol português. Mas esteve sempre à parte. Fora da escola dos meninos bem-comportados. Fora da estética higiénica do futebol sem rua e sem mistério. E fora, claro, por ser cigano.
Eis algo que não pode ser escrito com embaraço. O embaraço, aqui, seria uma forma de cobardia. E de mentira. Ricardo Quaresma não foi apenas um português que jogou futebol. Foi um português cigano que jogou futebol. Isto, para o caso, é fundamental. Aumenta-o. Dá-lhe uma grandeza que os prudentes não entendem, porque os prudentes nunca entendem nada. Faz dele aquilo que o futebol português precisa para se compreender: alguém que está dentro de casa, mas não foi criado pelas governantas da casa. Como Pessoa, como Esteves Cardoso, é o estrangeirado: aquele que consegue acertar em Portugal por não ter sido domesticado pela sua neurose oficial.
Há uma inteligência própria na margem. A cultura cigana, perseguida, desconfiada, habituada a atravessar os lugares sem se entregar inteiramente a nenhum, participa da antiga sabedoria de ver. Ver antes. Ver de lado. Ver por baixo. Ver por trás. Ver sinais onde os outros vêem matéria. Um futebol como o nosso, que, apesar de toda a ciência aplicada, sempre viveu sob o signo de figuras como o Bruxo de Fafe ou de práticas como as rezas em São Bento da Porta Aberta, talvez devesse prestar mais atenção a Ricardo Quaresma. Porque Quaresma vê.
E viu, ao ponto de o dizer na cara de Rúben Dias. O central falou em equilíbrio. Quaresma respondeu com a brutalidade elementar da evidência: jogaram para trás e para os lados. O central preveniu contra a loucura. Quaresma respondeu a favor do futebol.
Não é por acaso que a grande invenção futebolística de Ricardo Quaresma tenha sido a trivela. A trivela é o pé a recusar o caminho natural. É, se me permitem, geometria cigana: uma maneira de chegar ao destino sem aceitar o trajecto recomendado. Tudo o que esta Selecção precisava e não teve.
E não é só isso. O Quaresma, ao contrário dos jogadores desta Selecção, sentia as camisolas. O Sporting nunca foi tão verde, nem o Porto tão azul, como quando Quaresma as usava contra o Benfica. Era notável. Era terrível. Havia ali uma espécie de possessão. Concedo que não deva ser fácil honrar a camisola das ondinhas da calçada ou aquela outra com padrão de azulejos sanitários. Mas se Quaresma tivesse vestido qualquer uma delas, talvez conseguíssemos abstrair-nos daquela casa-de-banho temática de Airbnb em Campolide. Quaresma dentro dela seria mais Portugal do que a tal melhor geração de sempre toda junta. E a camisola com ele.
Mas não vestiu. Já não pode. Falou — que é a maneira que agora tem de a vestir. Quase no final da discussão, Quaresma disse: “Cada um com a sua opinião e eu respeito a tua.” Pode ter parecido diplomacia; foi a sentença possível.
Entretanto, Cristiano Ronaldo ainda não sabe se continuará ou não a jogar por Portugal. Diz-nos que não toma decisões de cabeça quente. Sabem quem é que poderia dar-lhe uma palavrinha? Isso.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.