Têm visto as primeiras páginas dos jornais? Esqueçam. Isso era dantes. Encostem o ouvido. Há um som por detrás de títulos como “Schjelderup explode no Mundial, Benfica já faz as contas aos milhões”, ou “Portas de saída estão abertas”, ou ainda “Venham, venham, levem o moço, quem dá mais?!”.
É o som de mãos a esfregar. As mãos dos grupos de comunicação a vender publicidade, dos comissionistas que facturam, da direcção do Benfica, pelos milhões que espera amealhar para gastar sabe-se lá em quê, e dos adversários do Benfica, por razões que não é preciso explicar.
Tempos houve em que o adepto vibrava com os jogadores do seu clube a brilhar nas grandes competições de selecções. Hoje tem medo que joguem bem. E pensa para consigo coisas como: “Sim, senhor”. E outras.
Quarenta milhões é o número de que se fala. E é um belo número: quarenta dias de Dilúvio, quarenta anos no deserto, quarenta ladrões a dizer “abre-te Sésamo” e, agora, quarenta milhões a dizer “passa para cá o Schjelderup”. Dá para imprimir uma data de zeros no relatório e contas e dá também para o presidente aparecer na televisão com a gravidade de quem salvou a pátria de uma invasão estrangeira. Dará até, quem sabe, para reduzir qualquer coisa à dívida.
Pois ouçam, vós que ainda tendes ouvidos para ouvir: a dívida não joga a extremo!
(A dívida não joga a extremo: eis uma frase para estampar em camisolas, bonés e, se possível, na testa dos directores financeiros.)
Schjelderup chegou à Luz em 2023. Era um rapaz de rosto imberbe, cabelo demasiado liso e um nome que parecia o ruído final de uma palhinha num batido de morango. “Schjelderup.” Digam-no devagar. Há no nome uma sucção, uma lambidela, qualquer coisa de Magali a engolir uma melancia. O futebol português desconfia de um homem sem olheiras. Um jogador com aquela cara podia, quando muito, pedir licença para ir à casa de banho durante a aula de matemática.
Quase não jogou. Voltou para a Dinamarca emprestado. Regressou. Saltitou entre o banco e o relvado com aquele olhar sobressaltado de quem vem explicar que o cão lhe roeu os trabalhos de casa, mesmo. Em Janeiro deste ano esteve muito perto de sair para o Club Brugge. Tão perto que o clube belga, os empresários e o próprio jogador já davam a mudança como certa.
Depois jogou contra o Real Madrid e marcou dois golos. Foi o que foi preciso para o Benfica perceber que Schjelderup era jogador do Benfica.
Entretanto, na última Assembleia, Rui Costa disse que Schjelderup ficou porque o Benfica teve paciência. É notável. E é uma maneira curiosa de descrever os acontecimentos. A paciência benfiquista consistiu em negociar a saída do jogador até à noite em que ele marcou duas vezes ao Real Madrid. Se não tivesse marcado, estaria provavelmente a comer moules-frites. Como marcou, passou a inegociável e manteve o regime de bolinhos de bacalhau. Mas agora, poucos meses depois, volta a ser negociável.
O dilema já tem uns anos valentes, mas nunca é demais perguntar: para que serve o Benfica? Encontrar bons jogadores para construir uma grande equipa ou construir uma equipa razoável para valorizar uns quantos? Ganhar campeonatos ou ganhar negociações? Erguer taças ou cheques pré-datados?
Isto é o Benfica. Não é o PAOK de Salónica. Perdão. A emoção traiu-me. Reformulo: isto é o Benfica, não é o Nordsjælland de Lisboa.
A razão de o Benfica existir não consiste em importar rapazes escandinavos, pô-los a correr em frente às câmaras para depois exportá-los para Inglaterra com margem. Nada contra. Isso é uma actividade perfeitamente legítima. Mas não é o Benfica. O desígnio do Benfica é ganhar títulos europeus. E quem se esqueceu disto, esqueceu-se de tudo.
Foi agora que Schjelderup começou a tornar-se um dos nossos. Foi agora que começou a sentir verdadeiramente o peso da camisola e a mostrar com regularidade o que só aparecia em lampejos. “E então?”, diz o homem razoável, como quem arruma o assunto com a melancolia tonta dos que não acreditam em nada.
Então distribuem-se as respectivas comissões, compra-se outro extremo por vinte ou trinta, espera-se dois anos, empresta-se seis meses, declara-se que precisa de adaptação e, quando finalmente marcar dois golos ao Real Madrid, vende-se também. Não tem nada que saber.
Nesta equação sai tudo a perder: perde o Benfica que fica sem Schjelderup; perde Schjelderup que, vá para onde for, nunca irá para o maior de todos; perde o adepto, que até já tinha comprado a camisola 21.
Disse que sai tudo a perder? Menti. Encostem outra vez o ouvido. Não os ouvem a lamber o prato? “Schjelderup!”
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.