Autor: FIFA, com a colaboração dos Estados Unidos da América, do Canadá e do México, bem como das quarenta e oito federações nacionais representadas no torneio.
Título da obra: Mundial de Futebol de 2026, também conhecido, para efeitos desta ficha, como O Mundial das Chuteiras Cor-de-Rosa.
Dados de publicação: Estados Unidos da América, Canadá e México, Junho e Julho de 2026. Edição da FIFA. Distribuição televisiva mundial. Preço variável, podendo um lugar na final atingir o preço de uma Yamaha TMAX 500 de 2009 no mercado de usados.
Género: Drama desportivo, comédia de costumes, espectáculo musical, campanha comercial e alegoria política.
Tema: Vinte e dois homens correm atrás de uma bola enquanto dirigentes, patrocinadores, chefes de Estado, comentadores e departamentos de marketing prosseguem objectivos distintos.
Palavras-chave: Cabo Verde; Vozinha; chuteiras cor-de-rosa; bota preta; cristiano-ronaldismo; sebastianismo; Donald Trump; Gianni Infantino; Inglaterra; estádio-malga; Madonna; seis mil euros; Espanha; monarquia.
O Mundial de Futebol de 2026 conta a história de várias selecções que viajaram até à América do Norte com o objectivo declarado de ganhar uma taça e o objectivo real de sobreviver às expectativas nacionais, às decisões da FIFA, à interferência política, aos preços dos bilhetes e ao guarda-roupa dos dirigentes.
Ao longo da obra, Cabo Verde demonstra que um país pequeno pode tornar-se, durante alguns instantes, o centro do mundo; Portugal confirma que continua a aguardar a salvação por um homem providencial; a Inglaterra joga o melhor futebol quando já não pode ser campeã; Gianni Infantino comparece de fato e ténis brancos; e Donald Trump descobre no futebol mais uma tarifa alfandegária à espera de utilização.
No final, ganha a Espanha. Mas, como sucede nas grandes obras, a vitória oficial não esgota o significado da narrativa.
O Mundial de Futebol de 2026 é uma obra irregular. Tem momentos de verdadeira grandeza, sobretudo quando os jogadores conseguem escapar ao dispositivo comercial e político construído à sua volta. Cabo Verde é a sua personagem moral; a Inglaterra, a personagem trágica; Donald Trump, a personagem inevitável; Gianni Infantino, a personagem que se julga autor.
Estilisticamente, a obra oscila entre a epopeia, o anúncio de televisão, a cimeira internacional e a cerimónia de lançamento de uma nova marca de batidos de proteína. A excessiva duração e a profusão de interesses secundários prejudicam a unidade narrativa. Ainda assim, sempre que a bola começa a rolar, a obra ameaça tornar-se boa.
O seu principal defeito é confundir escala com grandeza. O seu principal mérito é mostrar que o futebol continua, em certos momentos, a resistir àquilo que fizeram dele.
A escolha do estádio da final merece igualmente registo. A opção por um recinto aberto constitui uma excepção relevante à tendência contemporânea para a construção de espaços fechados. A configuração do recinto em forma de malga reforça a adequação formal entre princípio e fundamento. O modelo adoptado preserva ainda a relação tradicional entre o futebol e o exterior, permitindo a interferência dos elementos atmosféricos e, em circunstâncias favoráveis, de Deus. Confirma-se, assim, que o futebol beneficia de uma abóbada celeste em detrimento de um tecto retráctil.
A obra deve ser relacionada, em primeiro lugar, com o sebastianismo português. Cristiano Ronaldo desempenha o papel do homem providencial que não vem do nevoeiro porque nunca chegou a desaparecer.
Relaciona-se também com o ocaso da bota preta e com a transformação do futebol numa exposição permanente da individualidade: das tatuagens aos festejos coreografados. O fenómeno culmina no paradoxo das chuteiras cor-de-rosa: centenas de indivíduos ansiosos por serem únicos acabam calçados da mesma maneira.
No plano da recepção, o impacto da participação de Cabo Verde pode medir-se pela rápida conversão de «Vozinha» de nome próprio em cognome futebolístico. O fenómeno encontra confirmação doméstica em Sebastião Barbosa de Matos, filho do autor desta ficha e guarda-redes nas tardes de futebol do Clube Naval do Funchal, que passou a ser designado por «Vozinha». A promoção onomástica constitui, neste caso, um indicador seguro de consagração.
Importa ainda notar que a animação do intervalo da final deve ser entendida no quadro mais amplo das diferenças culturais entre a Europa e os Estados Unidos da América. A sobriedade europeia reagiu com previsível desconforto à exuberância do Novo Mundo. A crítica parece, contudo, excessiva. A entrada de Madonna, conduzida por Ronaldo e Ronaldinho — respectivamente identificáveis pelos dentes e pela pausa —, restituiu ao espectáculo uma dimensão de fantasia que o próprio torneio raramente conseguiu produzir.
No plano político, o Mundial confirma que o futebol deixou de ser apenas apropriado pelo poder, tendo passado a ser uma das suas formas de expressão. Trump trata-o como instrumento; Infantino põe-lho à disposição em sinal de deferência.
Finalmente, a vitória espanhola permite estabelecer uma relação com a permanência da monarquia no mundo contemporâneo. Num torneio dominado por falsos reis — dos golos, da pop, das assistências e dos frangos —, foi reconfortante encontrar em campo o chefe de Estado espanhol.
Cabo Verde ganhou a glória. A Inglaterra ganhou o futebol. A FIFA ganhou dinheiro. Trump ganhou mais uma ocasião para ser Trump. Infantino ganhou a oportunidade de usar um fato com ténis brancos diante do mundo inteiro.
A próxima edição encontra-se prevista para 2030.
Autor desta ficha: Manuel Fúria
Nome civil: Manuel Barbosa de Matos
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.