Nunca se viu uma temporada começar com os ombros dos benfiquistas tão encolhidos. Chegámos ao ponto de Jhon Durán ser uma esperança. Quem? Jhon Durán: procurem ler alguma coisa sobre o rapaz e compreenderão o estado de insanidade do Benfica actual. Depois de se inteirarem do caso, tomem nota da inversão: de quem parece ter cabeça, como o tal polaco Kaminski que custou vinte milhões, não se espera que jogue à bola (até porque, ao que tudo indica, também ele não faz questão de alimentar ilusões); mas de quem não a tem — e ainda por cima vem por empréstimo — espera-se que seja o craque da época. É uma espécie de síndrome de Caniggia: a má ideia que leva o falido a entrar no casino convencido de que só uma loucura o pode salvar da bancarrota. Com uma diferença: Caniggia tinha, como dizem agora os miúdos, “aura”.
No meio disto, o adepto pensa o que ainda há dias ouvi de um amigo consócio:
— Com tamanha falta de rumo e disciplina, era mesmo Rui Costa que faltava a este moço para lhe endireitar a vida!
Ora, nem a vida do jovem Durán, nem a vida do velho Benfica; e só quem anda distraído se surpreende. Agora, tarde e a más horas, toda a gente começa a chegar à conclusão de que o futuro do Benfica não passa pelo presidente eleito há uns meses. É gente desavisada. É gente que não lê. É gente que, numa palavra, não presta atenção à Tribuna Expresso.
Não é de bom tom recordar crónicas antigas. Mas eu disse, eu escrevi e até chamei os bois pelos cognomes. A questão é esta: se o futuro não passa por Rui Costa, o destruidor de Ferraris, passa então por quem? Respondo já e suprimo o suspense: passa por João Noronha Lopes, o alvo a abater.
É ele que, apesar do assassinato de carácter de que foi alvo nas últimas eleições, promovido por um dos maiores grupos de comunicação do país, continua a ser o único que não se apresenta como uma reformulação dos vícios do vieirismo.
Foi ele que conseguiu o prodígio de gerar esta espécie de consenso particularmente cobarde: todos o qualificam como “mau candidato” para não terem de admitir que seria um bom presidente.
E é ele que, queiram ou não, tem como capital político 34 mil sócios que votaram nele. Não é Vieira. Não é Manteigas. Nem é qualquer um dos outros salvadores de ocasião que andam sempre à espera de um buraco por onde meter a cabeça de fora.
O que João Noronha Lopes precisa de fazer é tão simples que, mesmo que não queira, a força das circunstâncias acabará por obrigá-lo.
E foi o que fez há uns dias à porta do Estoril Open, não porque tivesse convocado os jornalistas ou preparado uma reentrada em cena, mas porque a imprensa reconhece nele o que nem ele parece reconhecer. Não foi preciso dizer grande coisa. Bastaram três banalidades.
— Não vou fazer declarações.
— Tenho esperança de que Marco Silva ponha o Benfica a jogar à bola e de que ganhemos o próximo jogo.
— Faço um apelo aos benfiquistas para estarem no estádio a apoiar a equipa. Temos de ganhar e temos de conquistar a Liga Europa.
Dependendo de quem as pronuncia, três banalidades podem produzir os seus efeitos. Em tempos idos do futebol nacional, houve um certo presidente de um certo clube de uma certa segunda cidade a norte, cujas declarações eram invariavelmente classificadas como sendo de “fina ironia”. Pois bem: lidas com a devida fina ironia, estas três frases acertam em cheio em três alvos.
Alvo #1: a ideia feita — e especialmente pouco inteligente — de que quem está de fora não racha lenha: Noronha Lopes desmonta-a ao anunciar que não falará, tornando-se notícia por causa disso.
Alvo #2: o futebol do Benfica. A frase diz o essencial: o Benfica não joga nada e Marco Silva, por melhor treinador que seja, está metido num sarilho monumental.
Alvo #3: a bilhética. Ao pedir aos benfiquistas que encham o estádio, acaba por acertar no kafkiano sistema do Benfica, que mais parece concebido para os impedir de lá chegar. (Assunto a que um destes dias dedicarei a atenção que merece e a paciência que não merece.)
Porém, nem o calendário marca 1998, nem João Noronha Lopes é Pinto da Costa — graças a Deus. Não basta dizer umas subtilezas à porta do lugar onde calha aparecer gente da comunicação social; é preciso arregaçar as mangas e mostrar que não é apenas um antigo candidato, mas um benfiquista presente. Porque é isso que ele é.
Entre 2020 e 2025, João Noronha Lopes desapareceu. Teve medo da própria sombra. Ou então foi à vida dele. Se tiver sido esse o caso, não devia ter ido. Devia ter-se instalado num desses programas que pululam pelo cabo e passado cinco anos a falar de futebol, de estruturas, de modelos de jogo, de arbitragens, da formação, do relvado e, se necessário, da humidade relativa do ar.
É assim que se faz. Em Portugal, um homem que aparece todas as semanas na televisão acaba inevitavelmente por adquirir aparência de estadista.
Mas não há mal. É assim que se aprende.
Se Noronha Lopes quer ser considerado, tem de aparecer. Tem de falar. Tem de contrariar a ideia de que a oposição só existe quinze dias antes das eleições para depois voltar para a gaveta. Quem está de fora também racha lenha. Sobretudo quando quem está lá dentro já lhe deitou fogo.
P.S.: A coluna Odeio Futebol Moderno interromperá a sua actividade durante o mês de Agosto.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.