Rio Maior, Domingo, seis da tarde. O horário não é canónico, mas ainda assim aceitável na estação da luz infinita: o sol brilha, os adeptos já foram à Missa, já almoçaram o cozido e seguem para o campo ver a redonda rolar.
A equipa de Moreira de Cónegos, que começou o campeonato com um sólido empate contra o poderoso Sporting de Braga, chega a Rio Maior na condição de visitante do Casa Pia, histórico de Lisboa que, de há uns anos a esta parte, recuperou o estatuto de clube de primeira divisão. O fim de tarde promete. E cumpre.
Francisco Domingues, jovem atleta formado nas escolas do Sport Lisboa e Benfica, marca aquilo que a generalidade da imprensa classificou como “golaço”. Mas a generalidade da imprensa está errada, coisa que sucede frequentemente às generalidades. Golaço não é aquilo. Golaço, segundo aquele tipo de pseudo-etimologia que Abel Xavier consagrou ao ensinar-nos que o treinador “treina a dor”, é um golo com aço. É mesmo. Precisa de força, de impacto, de qualquer coisa que pulverize. Eram assim os golos de Eusébio, ou do Barroso, do Braga. E foi assim o golo do Lenglet anteontem contra o Estoril.
O que Domingues fez, porém, não pertence aos domínios da siderurgia. Pertence àquele instante de insensatez em que o cabedal da chuteira preta — ou a fibra de carbono da bota cor-de-rosa-choque, vá — se converte na pelica da luva branca.
Foi isso. Francisco recebeu a bola à entrada da área. A bola veio um pouco atrás, um pouco fora do sítio, a pedir-lhe que corrigisse a posição do corpo para depois fazer sabe-se lá o quê. É então que dez anos de Seixal se tornam inúteis. Domingues cruza a perna esquerda por detrás da direita e remata. A bola sobe, descreve no ar uma frase inteira e termina no fundo da baliza. Assim, sem emenda — que é como se diz nestas coisas.
Daqui decorre que, se o golaço pertence ao estrondo e à violência da matéria, o que Domingues fez pertence à gramática. Chama-se àquilo “golo de letra”. Que é, como se vê, o tipo de golo mais propício a ser escrito.
O gesto foi inteiramente desnecessário. Ainda bem. O futebol seria insuportável se nele acontecesse apenas o que tem de acontecer. Francisco Domingues podia ter feito o que lhe ensinaram, mas preferiu a solução menos eficiente e mais bela. Tem-se procurado expulsar do jogo tudo quanto não possa ser previsto. Mas, desde o minuto 24 de Domingo, só se fala em premiar como golo do ano precisamente o gesto que não constava de plano algum. Como se o verdadeiro futebol começasse no lugar onde os planos terminam.
E ajuda ser contra o Casa Pia. Facto que os votantes do Prémio Puskás não terão em conta, mas que eu tenho. O Casa Pia merece aquele golo. Por muitas razões. Primeiro por ser dos melhores clubes. E depois por se ter tornado num dos piores.
A identidade do Casa Pia era tudo. O que determinava o amor ao clube não era ter nascido numa certa freguesia ou crescer ao lado de um estádio, mas ter sido aluno da Casa Pia. O clube não precisava de um bairro porque constituía, ele próprio, uma espécie de diocese sem território, formada pelos antigos casapianos. O seu território eram pessoas.
Conta-me o Filipe d'Avillez, que sabe destas coisas e escreveu “Rumo ao Jamor — A verdadeira festa do futebol“, que os casapianos dos últimos anos tinham no clube de futebol o último reduto da identidade da própria instituição. Mas um reduto resiste; não se reproduz.
É difícil não suspeitar que, para quem procura uma plataforma desportiva para os seus negócios, esta espécie de fragilidade não seja um defeito, mas uma vantagem: um nome histórico e uma comunidade já sem força suficiente para determinar o que aquilo deve ser.
A tristeza que é ver o Casa Pia jogar em Rio Maior, a uma hora de distância de Pina Manique, não é a causa de nada: no Domingo passado, aquelas bancadas desoladas, num silêncio de jogo de Covid, eram como um balão vazio, à espera de ser cheio sabe-se lá por que vento.
Está bem, diz o leitor. Mas o Moreirense também tem fundos vindos das Américas. Sim e não: o dinheiro pode vir de sabe-se-lá-de-onde; mas não há em Moreira de Cónegos vivo ou morto que não saiba por que razão o Moreirense existe.
Aquele golo foi, na verdade, um golo contra estes tempos. Um golo de um clube que sabe perfeitamente quem é contra um clube que já não sabe quem há-de ser. E, claro, um gesto desnecessário contra um futebol em que tudo tem de servir para alguma coisa.
Por isso — e não apenas por ser sócio do Moreirense — permitam-me que, depois de uma interrupção para férias, regresse a estas crónicas da melhor maneira: Golo!
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.