Odeio Futebol Moderno

Uma esperança chamada Prestianni

Prestianni tem 20 anos. Ainda mal começou. Se não houver uma lesão idiota, um treinador iluminado, uma transferência madrasta ou qualquer outra dessas calamidades inventadas para impedir a felicidade eterna, vai perfeitamente a tempo de ser campeão europeu pelo Benfica

Andava eu entretido com a diferença entre golão e golaço, quando, sem mais nem menos, Prestianni rouba a bola a Rodrigo Andrade e segue por ali fora para pôr os pontos nos is. Atravessa então o meio-campo adversário todo, aguenta a carga do trinco do Marítimo, chega à área adversária, contorna os defesas, posiciona o corpo, puxa da perna direita sem puxar da perna direita e pumba, lá para dentro.

Os franceses chamam-lhe “bijou”, nós chamamos-lhe golaço; e é assim que se faz. Obrigado, Prestianni, pelo esclarecimento. Foi sensacional!

Parecia um daqueles golos do Fifa 98, quando, ao som da “Song 2”, dos Blur, passávamos tardes inteiras de semi-conjuntivite a ensinar o futebol a ser futebol. Naquele mundo sem posse estéril e sem prudência havia um único desígnio: pegar na bola, fintar toda a gente e marcar o impossível.

Assistir, por isso, ao advento de um miúdo chamado Prestianni é regressar a esse tempo em que aquilo que ainda está em potência já justifica toda a fé que continuamos a esbanjar num futebol que não tem feito grande coisa para nos merecer.

Isto numa semana em que Lenglet marca o golo que marca, Francisco Domingues do Moreirense é aclamado para prémio Puskás e, ainda anteontem, em Oliveira de Azeméis, Dylan Collard do Lusitano de Lourosa disparou o pastilho de uma vida. O adepto fica num tal estado de satisfação que devia desconfiar.

O jogo do Benfica na Madeira foi no Sábado. Uma semana antes, Bruno Vieira Amaral inaugurava Setembro com um texto dedicado ao pequeno génio argentino. Sim, já podemos chamar-lhe génio (aliás, devemos). Mandaria, então, o bom senso que quem mantém uma crónica na mesma secção desportiva, do mesmo periódico, exercesse de alguma reserva e não se pusesse a repetir temas a tão curta distância.

Mas esse tipo de parcimónia não se aplica aqui. O Bruno sabe isto e não leva a mal. Há assuntos que exigem parcimónia e há outros que exigem precisamente o contrário. Prestianni pertence ao segundo tipo. Prestianni vale um texto, vale dois, vale três, vale todos os textos que os cronistas de futebol — e os cronistas de política internacional, de cultura, de astrologia e de Fórmula 1 — estejam dispostos a escrever sobre ele. Se amanhã a secção de economia deste jornal quiser publicar seis mil caracteres sobre Prestianni, terá toda a minha solidariedade.

Porque há jogadores sobre os quais escrevemos aquilo que fizeram. E há jogadores sobre os quais começamos imediatamente a escrever aquilo que ainda não fizeram. É perigosíssimo.

A primeira época de Prestianni não foi brilhante. Mas não estaremos longe da verdade se dissermos que começou melhor do que Gaitán, Enzo Pérez, Salvio ou Di María começaram quando chegaram ao Benfica. Lembram-se? Nenhum deles foi de caras. O Bruno Vieira Amaral também falou disto. Eu pego no assunto e aponto a consequência: perante um argentino novo, o benfiquista aprendeu uma espécie particular de paciência. Olha para o rapaz, olha para a idade, olha para os pés e pensa: calma. E assim se estabeleceu uma regra não escrita no Estádio da Luz: quando chega um argentino atrevido e com qualquer coisa de excessivo, convém não fazer juízos definitivos antes de ele nos dar oportunidade de parecermos idiotas.

Prestianni tem vinte anos. Repito: vinte anos. Ainda mal começou. Se não houver uma lesão idiota, um treinador iluminado, uma transferência madrasta ou qualquer outra dessas calamidades inventadas para impedir a felicidade eterna, vai perfeitamente a tempo de ser campeão europeu pelo Benfica.

O leitor não se exalte. Eu sei do tempo que passou. Conheço os factos. Mas acontece que os factos padecem da circunstância de já terem acontecido. E eu escrevo sobre o que ainda pode acontecer. Que é precisamente aquilo que Prestianni é. E é espectacular.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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