Odeio Futebol Moderno

Recordações de um benfiquismo amarelo

A glória europeia pertence à própria ideia do Benfica. E quem se esqueceu precisa que lha recordem, nem que seja à bofetada metafórica. O Benfica existe para a grandeza europeia. Os tempos mudam, os protagonistas também, os coeficientes da UEFA sobem e descem, os comentadores encolhem os ombros, mas a essência de um clube não pode ser recalculada de quinze em quinze anos como a prestação do empréstimo da casa

O caso não era para menos. Prestianni é craque. Mas a reacção geral ao texto da semana passada foi, digamos, curiosa. Claro que escrever “reacção ao texto” é uma generosidade. A reacção não foi propriamente ao texto mas a um daqueles cartõezinhos que as equipas responsáveis pelas redes sociais dos grupos de comunicação fabricam para alimentar os entusiasmos digitais. Ao texto, stricto sensu, as reacções foram lisonjeiras. O texto não era terrível. Teve, aliás, entre os seus méritos, a capacidade de fornecer boa matéria-prima aos sempre-promissores fragmentos de pólvora digital que alimentam as neuroses contemporâneas.

O tal cartãozinho, para além de uma espécie de cromo do jogador em apreço, continha a seguinte citação: Prestianni tem 20 anos. Ainda mal começou. Se não houver uma lesão idiota, um treinador iluminado, uma transferência madrasta ou qualquer outra dessas calamidades inventadas para impedir a felicidade eterna, vai perfeitamente a tempo de ser campeão europeu pelo Benfica. Não interessa que no texto original surgisse, imediatamente a seguir, o enquadramento em que o autor, no caso eu, recomendava ao leitor que não se exaltasse e reconhecia perfeitamente a distância que nos separa dos tempos da glória europeia benfiquista. Interessava sim a conjugação dos ingredientes que, juntos, deram azo a um frenesim que o leitor poderá calcular.

Nada contra. A crónica de hoje não serve para me queixar de ser treslido. Ou de não ser lido. Nem sequer do que e de como é lido aquilo que ainda se lê nestes tempos em que dois parágrafos representam um desafio outrora reservado ao poema épico.

Resulta claro do mundo, como o mundo está, que leitores não abundam. Abundam representantes. Representantes dos mais variados grémios, associações, preferências, tendências, igrejas, partidos, clubes, causas e ressentimentos. Uma espécie de gente que entra na internet para fazer tudo excepto ler. O representante só lê, quando chega a tanto, para descobrir a que família de afinidades pertence o autor e decidir se é para aplaudir ou para apedrejar. Se lhe dermos Dostoiévski, por exemplo, quererá primeiro saber se Raskólnikov subscreveu a causa palestiniana e, em caso afirmativo, se tem as quotas em dia.

Neste caso, os amigos do Porto e do Sporting fizeram o que tinham a fazer. Publicaram carinhas amarelas a rir, perguntaram se o cronista, no caso eu, estaria sob a influência de substâncias que a lei ainda não teve ocasião de proibir. Ninguém estranhou, excepto talvez Pacheco Pereira. O desconcertante foi assistir aos próprios benfiquistas alinharem no pagode, como se a hipótese de o Benfica ser campeão europeu fosse uma extravagância comparável à ressurreição do Império Austro-Húngaro.

Não é. A glória europeia pertence à própria ideia do Benfica. E quem se esqueceu precisa que lha recordem, nem que seja à bofetada metafórica. O Benfica existe para a grandeza europeia. Os tempos mudam, os protagonistas também, os coeficientes da UEFA sobem e descem, os comentadores encolhem os ombros, mas a essência de um clube não pode ser recalculada de quinze em quinze anos como a prestação do empréstimo da casa. Caso contrário, deixa de ser aquilo que era e passa a ser outra coisa. O Santa Clara também veste de encarnado e, quando resiste à tentação de ser parolo, usa um emblema quase igual ao do Benfica. Mais vale então apoiar o Santa Clara. Há menos desilusões, melhor paisagem e, suponho, bastante menos gente a explicar na televisão a importância das contas consolidadas.

Porque, se um benfiquista considera risível a ideia de o Benfica voltar a ser campeão europeu, o problema já não é o subtipo de optimismo insalubre do cronista. É amnésia. (E depois somos nós os malucos, como se o nosso fosse um benfiquismo amarelo.) Pode subscrever o Red Pass, possuir uma gaveta a transbordar de cachecóis, ter uma águia tatuada no gémeo esquerdo e passar a manhã de Segunda-feira a explicar a incompetência do quarto árbitro em Arouca. Não interessa. Ignora o principal. O que demonstra com eloquência que uma parte substancial do benfiquismo está colonizada por gente que considera normal que o Benfica seja menor do que a memória que têm dele. Para esses aproveito para revelar um segredo: a rábula dos “15 a 0”, do Gato Fedorento, não era uma paródia. Era uma homenagem ao adepto benfiquista.

Contra o Marítimo, os pés de Prestianni provocaram o mesmo efeito que as tais lajes desiguais do baptistério de São Marcos provocaram em Proust: o presente cedeu por um instante e outro tempo reencontrou-se por inteiro: as tardes de Fifa 98, a Song 2, e aquele futebol em que a finalidade de um jogador com a bola ainda era ultrapassar adversários e marcar golos.

Mas com isso reapareceu algo de mais incómodo. Como tantas vezes acontece no Benfica, o passado voltou para nos revelar que o presente é o avesso daquilo que um dia fomos. E nós, habituados que estamos ao catecismo da resignação, vamos alinhando com essa corja de sensatos que se dedica a encontrar razões que justifiquem que um grande clube deixe de ser grande.

No meio disto tudo, a melhor das respostas veio de quem? De Prestianni, claro. Dias depois, no jogo contra o Gil Vicente, enquanto os adultos discutiam nas caixas de comentários a insanidade de quem ousa imaginar um desígnio europeu para o Benfica, Prestianni teve a indelicadeza de continuar a jogar futebol. Uma bola à trave e mais um golaço. E isso é quanto basta: se não houver uma lesão idiota, um treinador iluminado, etc., vai perfeitamente a tempo de ser campeão europeu pelo Benfica.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt