Um — o jogo começa equilibrado; o Benfica joga bem. Dois — acontece qualquer coisa que altera a ordem inicial. Três — a partir daí, faltas e cartões vão todos para o mesmo lado. Quatro — mais para o fim, por uma questão de decoro, aparece um amarelo para o FC Porto. Resultado: o Benfica perde a cabeça, o FC Porto ganha o jogo e toda a gente se zanga.
Com uma ou outra variante, a fórmula já foi tantas vezes posta em prática que custa acreditar que ainda haja quem se surpreenda. 24 de Agosto de 1994? 3 de Janeiro de 1998? 8 de Fevereiro de 2009? 20 de Setembro de 2026? O Rui Costa, where art thou?
Podem dizer o que quiserem. Que o Farioli é talentoso, que há uma estratégia, brilhantismo técnico-táctico, capacidade de antecipação, arte da guerra, maquiavelismo desportivo, o que quiserem. Pode haver isso tudo. Mas há outra coisa. E essa coisa tem mais de quarenta anos e um nome que nem vale a pena pronunciar. Dir-me-iam que estava a ser tendencioso, que tinha palas nos olhos ou, pior, que era benfiquista, circunstância que comprometeria à partida qualquer pretensão de objectividade.
Foi, por isso, um extraordinário acaso que, em vez de ver o jogo entre fiéis da mesma causa, me tenha calhado ver o FC Porto-Benfica de Domingo na companhia de uma senhora que joga golfe. Sim, uma senhora que joga golfe. De entre todas as classes, categorias, ordens e corporações em que a espécie humana se foi organizando desde o princípio dos tempos, não há ninguém tão habilitado para uma análise desapaixonada de um FC Porto-Benfica como uma senhora que joga golfe e não percebe nada de futebol.
Começou logo, antes de quaisquer ocorrências:
— Mas estes jogadores do Benfica têm uns nomes. Schjelderup parece o som de um cachorro a beber água. E o outro, Aursnes, parece um espirro.
O jogo avançou. O árbitro fez o que um árbitro faz nas Antas (ou no Dragão, tanto dá). A senhora que joga golfe começou a ficar intrigada. Até que recorreu à modalidade que domina:
— Isto é como fazer batota no golfe: quando ninguém está a ver dá-se uma pancadinha na bola para ficar mais perto do buraco.
Foi nesse momento que percebi estar perante uma escola de análise futebolística que, até hoje, me tinha sido vedada. Propôs mesmo uma reforma regulamentar:
— Eu acho que estes jogos assim, em que o árbitro erra tanto, deviam dar pontos negativos à equipa beneficiada.
Era radical, admito — mas só admito agora.
Quando o ponteiro bate o minuto 79, já a senhora que joga golfe está perfeitamente inteirada da particular gramática de um FC Porto-Benfica:
— Pois. Quando já não faz diferença é que sai o primeiro amarelo para o FC Porto.
Os comentadores televisivos estavam encantados. Falavam de um belíssimo jogo.
— Um belíssimo jogo?! Estes comentadores não viram o mesmo jogo que nós.
— Eu nem acho que o FC Porto esteja a jogar assim tão bem.
Foi então que a senhora que joga golfe desenvolveu a sua própria teoria de gestão de danos:
— Assim não dá. Com um árbitro destes, para que é que uma pessoa vai para ali jogar? Mais vale ficar parado, tipo estátua. Ninguém se magoa, ninguém se chateia, eles podem marcar cinquenta golos, mas, pelo menos, não levam mais de três pontos. Não é? — perguntou-me directamente.
Optei por não responder. Sorri por cortesia, mas confesso que a teoria me pareceu difícil de rebater. Mais à frente, na jogada em que não foi marcado um canto ao Benfica depois do lance com Palhinha, a senhora que joga golfe tornou-se quase jurisprudente:
— Eu não percebo muito de futebol, mas as câmaras mostraram que aquilo era canto. Assim não vale.
Aos 91 minutos, o último sobressalto:
— Não acredito que ele não vai dar amarelo por aquele empurrão! Oh! Deu ao do Benfica! Deu mesmo! Meu Deus! Não acredito!
Resolvido o confronto, desabafou:
— Não percebi esta briga. A única coisa que vi foi um empurrão do FC Porto.
No fim, formulou o seu juízo moral:
— Eu acho que eles deviam ter vergonha de festejar esta vitória. Sinceramente.
Entretanto vibra o telefone. Recebo uma daquelas mensagens que os meus amigos portistas têm o cuidado de me enviar nestas ocasiões.
— Mas esse é do FC Porto ou do Sporting?
— Do Porto. Cidade e clube.
— Coitado?! Coitados mas é de nós.
A senhora que joga golfe olha para mim com espanto:
— Coitado mas é ele, por ter ganho assim. Já viste a vergonha que é?!
E assim, meus amigos, encerrou-se a questão.
No dia seguinte, abrimos o jornal, damos de caras com uma bizarra unanimidade, da qual até benfiquistas participam. Surgem formulações do tipo ‘o mérito de nunca perder o controlo’, ‘pragmatismo à prova de bala’, ‘classe e aproveitamento de oportunidades’, ‘audácia’, ou ‘gestão de vantagens’.
Controlo? Pragmatismo? Audácia? Gestão? Não vale a pena. Só vejo uma solução: contactar com urgência a Federação Portuguesa de Golfe e solicitar um contingente de senhoras que jogam golfe para integrar os painéis dos programas de futebol. Uma por canal. Duas nos jogos grandes.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.