Opinião

Nem 5 mil árbitros existem em Portugal, menos do que no final dos anos 90, mas os cursos de arbitragem ainda não são gratuitos

Nem 5 mil árbitros existem em Portugal, menos do que no final dos anos 90, mas os cursos de arbitragem ainda não são gratuitos

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Duarte Gomes critica a pouca aposta feita na arbitragem em Portugal e sublinha a falta de vontade política, nem investimento. Investimento sério, ponderado, planeado. Não há pensamento estratégico sobre isto. Não há atuação abrangente, coordenada e ponderada, que fale a uma só voz

Imaginem a arbitragem como um edifício. Um edifício que, como qualquer outro, deve ter uma base sólida e segura. Uma base que suporte o peso e a dimensão de tudo o que é construído depois. Em cima. Acima.

A analogia, que vale para tantas áreas das nossas vidas, faz sentido porque ilustra a importância dos alicerces no crescimento de quem arrisca abraçar a carreira. Neste caso, essas raízes, essas fundações, moram nos múltiplos campeonatos distritais organizados, com mérito e sacrifício, pelas vinte e duas associações de futebol do país.

Na arbitragem ninguém começa a meio ou no topo. Ninguém tira cursos intensivos na FPF ou Liga Portugal: tem que se começar por ‘baixo’. Lá em baixo. Nas bases, no futebol de formação, nos regionais.

Hoje em dia, qualquer jovem de 14 anos pode frequentar o curso de árbitro, que não sendo sempre gratuito (é inacreditável que ainda não o seja), permite-lhe o conhecimento básico das regras e o saber prático suficiente para lançar-se de apito numa mão e cartões na outra.

Esse arranque é gradual e adequado ao seu grau de crescimento: primeiro vêm os jogos dos mais pequenitos, depois outros mais a doer, com outra dinâmica e intensidade. A evolução é paulatina, mas mais rápida do que o desejável, porque a escassez de recursos é uma realidade incontornável.

A arbitragem portuguesa conta hoje com menos de cinco mil árbitros no ativo, número que é inferior ao que existia no final da década de noventa. Dá que pensar, não dá? Como é que é possível que vinte e cinco anos depois, o futebol - que se orgulha de ter evoluído de tantas formas e em tantos sentidos -, não tenha tido a capacidade de crescer também aqui, num setor fundamental do jogo?

Numa altura em que tanto se fala do crescimento maciço do número de atletas federados (e bem), porque é que não se consegue ter a capacidade de ‘seduzir’ mais pessoas para a arbitragem? Porque é que não se faz também desse um objetivo a atingir?

Para mim, é muito claro: não há vontade política nem investimento. Investimento sério, ponderado, planeado. Não há pensamento estratégico sobre isto. Não há atuação abrangente, coordenada e ponderada, que fale a uma só voz.

Nestas coisas, é preciso identificar o problema, pensar na solução e atuar. Atuar com amplitude e firmeza. Com consciência e consistência.

Tenham noção que não há aqui nenhuma narrativa fatalista. A verdade dos factos é indesmentível: todos os fins de semana há centenas (!) de jogos oficiais sem árbitros nomeados, porque os poucos que cada associação dispõe não conseguem dar ‘vazão’ a tanta exigência (mesmo arbitrando seis e sete jogos por fim de semana).

Meus amigos, este é um problema sério, que origina depois outros que bem conhecemos: o cansaço origina falta de qualidade, intolerância, más decisões e essas geram discordância, desconfiança, violência. É uma bola de neve que está longe de começar aí, mas que também começa aí.

O futebol que se joga em 2023 e que orgulha tanta gente pelos números crescentes que ostenta, não é compatível com a continuidade de um drama que existe há décadas e que não parece incomodar ninguém.

É preciso fazer melhor! É preciso aprender a recrutar mais. É preciso saber manter. É preciso cativar gente para a arbitragem, arranjando estratégias para que não desistam ao primeiro insulto, ao primeiro percalço.

A solução não é fácil, mas passa por pôr mãos à obra, abrir os cordões da bolsa e envolver todos na solução: clubes, associações de futebol, escolas, autarquias locais e FPF.

Se o aliciamento for maior, se a perspetiva de carreira estiver bem definida, se a sensação de segurança aumentar, se os pais dos mais novos pessoas perceberem que a arbitragem pode ser uma excelente alternativa à carreira ‘menos conseguida’ de jogador, os números sobem.

Mais quantidade é, neste caso, sinónimo de mais qualidade porque quanto mais árbitros, maior a possibilidade de filtrar os mais qualificados. Aqueles que tecnicamente provam mais. Aqueles que, em termos de valores e conduta humana, mostram-se diferenciados. E sim... nesta carreira, qualidade humana é tão importante como competência em campo.

Em princípio de ano, fica o apelo a quem tem obrigação institucional de definir estratégias e de mudar um paradigma que tem décadas de estagnação e esquecimento.

A arbitragem é o tal edifício enorme, que não começa no topo, por muito que seja esse que aguce o apetite de todos.

É preciso cuidar da base.
Mãos à obra, se faz favor.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt