Opinião

Continuamos a ter idiotas a ameaçar na selva das redes sociais. E continuam a ser os árbitros o alvo preferencial desses trogloditas

Continuamos a ter idiotas a ameaçar na selva das redes sociais. E continuam a ser os árbitros o alvo preferencial desses trogloditas

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Partindo do caso recente de Luís Godinho, árbitro internacional português que denunciou os impropérios que recebeu após o SC Braga-Vitória, Duarte Gomes lamenta os que ofendem, ameaçam, perturbam a paz familiar e pessoal, incomodam a toda a hora, acordam a meia da noite e depois fazem tudo de novo na jornada seguinte. E parece estar tudo bem. Porquê?

Luís Godinho, internacional português, partilhou há uma mensagem que recebeu pouco antes, onde lhe foram dirigidos vários impropérios a propósito da sua arbitragem no SC Braga-Vitória SC, que dirigiu na véspera.

O assunto não é novo, mas registo com agrado a forma como espanta gente decente, célere a criticar a escassez de neurónios de quem se presta a àquele tipo de números.

A verdade e é importante que isso fique claro, é que este tipo de abordagens, seja via mensagem privada ou comentário a posts/notícias, são recorrentes e acontecem há muito tempo.

Antes da explosão incontrolável das redes sociais, a coisa dava-se de forma, digamos, mais espontânea: de vez em quando ouvia-se um insulto básico do outro lado da rua ou um grito coletivo de meia dúzia de heróis sentados na esplanada de um café. De vez em quando ouvia-se uma buzinadela mais agressiva de um condutor chateado ou até uma tangente atrevida de um lunático do volante.

Agora não. Continuamos a ter idiotas a chatear em público, mas é a selva do online que domina, batendo forte e feio em tudo o que mexe: árbitros, jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas, comentadores e qualquer outra pessoa que "ouse" participar direta ou indiretamente no jogo.

Ainda assim, são os homens do apito o alvo preferencial desses trogloditas que, com pouca culpa, apenas dão aos neurónios o uso que sabem.

Muito raramente essa rapaziada atua com estratégia ou de forma maliciosa. Eles só não sabem mais. Não tiveram a possibilidade de crescer com valores e aprender o que é a educação, o respeito ou empatia pelo próximo. É por isso que se mascaram de heróis sem capa, com a cumplicidade que o teclado assegura.

Já fiz várias vezes o que fez agora Godinho e de vez em quando repito-o, mas lá no fundo sei que estas pobres almas não podem ser valorizadas. Dar-lhes palco é dar-lhes exatamente aquilo que mais anseiam: atenção. Mas o que elas realmente precisam é de colo, compreensão e tolerância. Temos que perceber que um Fiat 600 jamais será um Ferrari.

Mas esta constatação não anula outras mais importantes:

A primeira é a evidência que, em termos culturais e educacionais, continuamos longe, muito longe, do que podíamos e devíamos ser enquanto cidadãos de um país de bem, democrático, livre e saudável. A latinidade pode até atenuar laivos pontuais de estupidez, mas não desculpa tudo. Há sim, problemas estruturais profundos que justificam a recorrência destas e de outras investidas. Estou em crer que a formação das próximas gerações tem que começar no útero, senão será tarde demais.

A segunda é a gritante sensação de impunidade que continua a gozar quem se predispõe a cometer crimes online com esta frequência. É que a maioria destes pobres coitados nem se dá ao trabalho de ocultar o perfil ou falsear o nome. É à cara podre, de peito feito e com uma inconsciência surreal que violam repetidamente a Constituição, o Código Penal, todas as leis que existem... e no pasa nada.

Eles ofendem, ameaçam, perturbam a paz familiar, incomodam profissionais de bem a toda a hora, acordam as pessoas a meia da noite e depois fazem tudo de novo. Uma, duas, cem vezes. Porquê?

Penso que no dia em que a nossa justiça encontrar formas eficazes de controlar estes delinquentes menores, a coisa pode melhorar. E melhorará de certeza.

Mantenho uma convicção antiga: a melhor forma de resolver estas situações é mantendo o equilíbrio entre pedagogia e punição. Entre sensibilização e sanção. As duas são fundamentais para que aprendam, mas a segunda é mais eficaz na forma como passa a mensagem.

Infelizmente.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt