Opinião

A meio do Lyon-Auxerre, um jogador entregou um papel com um protesto ao árbitro: que expediente é este?

A meio do Lyon-Auxerre, um jogador entregou um papel com um protesto ao árbitro: que expediente é este?

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Tudo aconteceu ainda na 1.ª parte do encontro da Ligue 1, depois do Auxerre discordar veemente de uma decisão do árbitro Jeremu Stinat. Duarte Gomes, ex-árbitro internacional, explica o que se passou

Pensamos que já vimos de tudo, mas o futebol continua a surpreender-nos com momentos inusitados. É certo que o homem já mordeu o cão em vários momentos imprevisíveis do jogo, que o YouTube ou uma série de memes online não nos deixam esquecer. Mas desta vez foi diferente, porque o inesperado não veio de uma qualquer liga amadora, mas da Primeira Liga francesa, a mesma onde desfilam vários craques de nível mundial.

O Lyon-Auxerre do passado domingo entrou para a história devido a uma situação nunca antes vista naquelas bandas. O jogo terminou com um empate a dois, mas o lance que gerou polémica aconteceu ainda na primeira parte, quando o árbitro assinalou um pontapé de penálti para os da casa, por infração de Mensah sobre Mikautadze.

A equipa forasteira discordou veemente, alegando que Jeremy Stinat (curiosamente um ex-jogador de futebol profissional) tinha interrompido o jogo antes do castigo máximo. Depois de dez minutos de interminável discussão, com expulsão do adjunto e intervenção do VAR pelo meio, a decisão manteve-se mesmo e o Lyon inaugurou o marcador, partindo em vantagem para o intervalo.

Mas a parte realmente inédita ali foi o recurso a uma prerrogativa pouco conhecida, prevista no Art. 559° do Regulamento de Competições da Federação Francesa de Futebol, que permite às equipas a possibilidade de solicitarem uma "Reserva Técnica". Trata-se de um expediente que deve ser ativado no momento em que o lance acontece e antes que o jogo reinicie.
Se um dos clubes entender que o árbitro cometeu uma falha relevante (eventualmente um erro de direito), deve submeter-lhe de imediato um documento escrito, dando conta da intenção de protestar o jogo no final. E foi exatamente isso que fez o capitão do Auxerre, o nosso conhecido Jubal Júnior, após a decisão e antes da execução do penálti.

Por acaso o jogo terminou empatado, o que levou o Auxerre a abdicar da intenção, mas caso a equipa gaulesa levasse o processo em frente, caberia às instâncias disciplinares a avaliação da situação, para ver se o jogo seria ou não repetido.

Confesso que já vi muita coisa nos meus anos no ativo, mas um jogador entregar um papelinho ao árbitro a meio do jogo, a dizer "quero protestar o jogo no fim porque acho que você cometeu um erro técnico" é estreia absoluta.

Sem prejuízo da bondade da iniciativa, penso que esse direito poderia e deveria ser exercido no final do tempo regulamentar, de modo e em local apropriado, como acontece na esmagadora maioria das ligas profissionais. Ali, no meio de tanta adrenalina, com cansaço, revolta e falta de lucidez à mistura, o jogo pára demasiado tempo, potenciando enervação generalizada e irritabilidade nas bancadas.

Fará sentido? Eu acho que não.

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