Opinião

Arbitrar jogos da dimensão de um SC Braga-Sporting ou de um Benfica-FC Porto é terrível: não é para quem quer, é para quem pode

Arbitrar jogos da dimensão de um SC Braga-Sporting ou de um Benfica-FC Porto é terrível: não é para quem quer, é para quem pode

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Em dia grande de futebol, com uma jornada 11 que tem dois duelos muito exigentes, Duarte Gomes fala do quão difícil é para um árbitro gerir encontros desta dimensão

I. Héctor Herrera, médio mexicano com passagem de sucesso pela Europa, protagonizou episódio repugnante (não há outra forma de o catalogar), que marcará a sua carreira de forma indelével.

O jogador do Houston Dynamo, equipa com quem entretanto rescindiu contrato, cuspiu na direção do árbitro, na sequência de um cartão amarelo que viu com justiça. Mas a questão nem é essa: mesmo que a advertência tivesse sido injusta, nunca um jogador com a sua categoria e experiência poderia fazer o que fez.
Cuspir deliberadamente na direção de alguém é algo inenarrável. É de um nível baixíssimo, inqualificável, sobretudo para alguém com maturidade para lidar com situações de maior exigência e pressão.
Esta opinião não pretende diabolizar o homem, a pessoa ou o atleta. Não pretende sequer colocar em causa o mérito desportivo que o mexicano evidenciou ao longo da carreira.
Pretende apenas censurar o gesto, a opção infeliz.
Se este tipo de condutas não tiverem resposta firme e célere, correm o risco de se repetir. E correm também o risco de serem desvalorizadas, como se estivéssemos a falar de um momento mau ou de um dia menos bom.
Não podemos permitir que isso aconteça. Tem que haver linhas inultrapassáveis, sobretudo no desporto de alta competição. E quem as atravessa de forma tão deseespeitosa, tem que ser denunciado e penalizado exemplarmente.
Que o atleta o saiba reconhecer, desculpar-se, assumir a sua responsabilidade e seguir em frente, como só os grandes homens sabem fazer.
II. Este domingo, SC Braga e Sporting CP defrontam-se ao fim da tarde, pouco antes de SL Benfica e FC Porto jogarem na Luz.
Para os jogos estão nomeados Luís Godinho (na Pedreira) e João Pinheiro (na Luz).
Nunca é demais repeti-lo: arbitrar jogos desta dimensão é terrível. Não há outra forma de o dizer. Só quem nunca pôs um apito na boca ou pisou um relvado é que poderá ter ideia diferente.
Nesses dias, jogadores, treinadores e adeptos estão entusiasmados mas tensos. Há sempre qualquer coisa em jogo, nem que seja a ambição de ganhar ao grande rival ou o peso da história que todos sentem de forma especial. Os níveis de ansiedade, que cada um gere como sabe, são absurdos. E isso porque a montra é mais visível, a exigência competitiva enorme e a pressão, que vem de dentro para fora e de fora para dentro, abissal.
Parte dessas sensações são sentidas pelos próprios árbitros, que nestes jogos têm que aliar eficácia no processo de decisão a firmeza, serenidade e gestão sensata de emoções intermitentes.
É garantido que a propensão para o protesto, para o conflito, para a simulação e perda de tempo é maior. E é também garantido que a intolerância nos bancos técnicos e nas bancadas é tremenda.
Não há heróis na arbitragem e, cá como em qualquer outra liga, haverá sempre boas e más decisões. Haverá acerto e erro. E mesmo com VAR (ajuda mas não resolve tudo), haverá sempre quem fique insatisfeito, porque a maioria das situações técnicas são interpretativas ou especulativas.
Não é para quem quer, é só para quem pode. E é por isso que há cursos de arbitragem abertos toda a época. Para que aqueles que tanto prazer sentem em lançar pedras, possam finalmente deixar de falar e passar a fazer.
Todos somos poucos. Venham daí. Mas até lá, confiem na integridade, coragem e competência de quem lá está.
Eles fazem o melhor que podem e sabem.

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