Opinião

Sugerir que os árbitros erram de propósito ou que perseguem e beneficiam alguém, é crime. Não vale tudo para se voar mais alto

Sugerir que os árbitros erram de propósito ou que perseguem e beneficiam alguém, é crime. Não vale tudo para se voar mais alto

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Há diferenças, em jogo, entre um jogador ofender diretamente (o que dá direito a expulsão) e atirar palavrões frustrados para o ar. Em quem comenta o que acontece nos jogos, também não é a mesma coisa criticar um árbitro pelo seu desempenho e insinuar que essa pessoa teve tal prestação propositadamente

1. Palavrão é insulto?

O futebol é um ambiente de exceções. De boas e más exceções. A natureza competitiva do jogo, aliada à sua intensidade emocional e ao impacto que tem na vida de tanta gente, facilita o uso de um tipo de linguagem que em ambiente social dificilmente seria tolerada.

Convém ter em conta que a adrenalina, o contacto físico e a luta pela vitória aumentam os níveis de exaltação, retirando a jogadores, treinadores e adeptos o controlo emocional que geralmente têm em todas as outras áreas das suas vidas.

Cabe ao árbitro - o único em campo "obrigado" a comportar-se exemplarmente a toda a hora - a gestão dessa linguagem, calibrando a linha entre aceitável e condenável. Entre legalidade e ilegalidade. 

Essa não é uma gestão fácil. Pressupõe sensatez e capacidade de avaliar o momento com coerência, firmeza e sentido de justiça. 

Quando um jogador diz um palavrão depois de não ser assinalada uma infração que ele achava que existia, o mais certo é não estar a direcionar a "ofensa" ao juiz ou aos adversários. Está apenas a desabafar, a libertar a sensação de injustiça que o assola naquele instante. Ora isso não é enquadrável em uso de linguagem ofensiva, injuriosa ou grosseira, como a Lei 12 impõe para lhe exibir o cartão vermelho.

A ideia é fácil de entender: 

- Frustração momentânea é uma coisa, insulto direcionado é outra. Palavrão solto depois de levar pancada é uma coisa, ofensa olhos nos olhos a quem está mesmo à frente é outra.

Os impropérios não são bonitos de se ouvir e devem ser medidos, mas, numa atividade tão intensa a nível físico e emocional, é normal que exista quem tenha mais controlo e quem não se contenha tão bem.

Para quem quer perceber os critérios a avaliar nestes casos, fica a dica: ofender diretamente dá direito a expulsão. O resto é para enquadrar na circunstância e na formatação cultural da modalidade, apelando ao bom senso e à contenção. 

Não custa nada e, mais importante, é aquilo que o futebol espera. Com coerência, claro.

2. O Comentador-Adepto

Regresso a este tema, procurando mais uma vez intervenção pedagógica junto daqueles que assumem essa posição em órgãos de comunicação social.

O "comentador-adepto" não é um jornalista. Não está sujeito ao seu código deontológico nem à obrigação profissional da independência e equidistância. Pelo contrário. São contratados para defenderem energicamente os seus clubes, de preferência atacando os rivais. 

Não concordo com a opção editorial - já participei em formatos do género, sei do que falo - mas respeito-a, sabendo que é uma forma de garantir audiências, algo fundamental para a sobrevivência dos media privados. A escolha é eticamente discutível (afinal de contas, qual é o papel educativo que a imprensa deve desempenhar?), mas este é tema para outras núpcias. 

O apelo agora é dirigido a todos os que exercem aquele papel: sejam mais contidos nos comentários, nomeadamente quando afetam terceiros. É possível defender os vossos interesses sem insinuar que os dos outros - ou os outros - são parciais, desonestos ou corruptos. Isso vale sobretudo para os comentários feitos em relação às arbitragens. 

Todos temos família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho. O impacto de algumas dessas declarações são nefastos e têm que ser responsabilizados.

Apelidar de incompetente, de mau árbitro, de mau analista ou de impreparado é uma coisa; sugerir que erram de propósito, que perseguem ou beneficiam alguém ou que são parciais, é crime. 

A liberdade de expressão de cada um está balizada pela lei e limitada à interferência na dos outros. 

Opinar publicamente pressupõe responsabilidade e ponderação, sobretudo quando o que se diz é ofensivo ou falso.

Façam o favor de pensar nisso. 

A legítima pretensão em quererem voar mais alto não pode nem deve ser feita à custa do bom-nome dos outros. Isso dirá sempre mais de vocês do que daqueles que falam e no momento certo, ninguém se esquecerá disso.

Agora que a época está a fechar e em breve outra estará a iniciar, vamos tentar fazer parte da solução.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt