Opinião

A equipa de arbitragem errou na final da Taça, que parece condenada pela memória de um momento que durou meia dúzia de segundos

A equipa de arbitragem errou na final da Taça, que parece condenada pela memória de um momento que durou meia dúzia de segundos

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

O que Matheus Reis, do Sporting, fez a Andrea Belotti, do Benfica, no Jamor, foi grave. Mas isto deve levar a uma análise exaustiva que responda aos porquês, procurando perceber o que correu mal, que bloqueios ocorreram, que falhas técnicas e comunicacionais surgiram e, mais importante, como se pode garantir que nunca mais se repitam em idênticas circunstâncias. Se o espírito não for esse, de nada valem jarras ou enforcamentos públicos. A ideia não pode ser a de servir sangue ao povo, mas diagnosticar e corrigir

A recente final da Taça de Portugal parece condenada à história pela memória de um momento que durou pouco mais de meia dúzia de segundos. 

Infelizmente, esse instantâneo foi suficiente para abafar mais de cento e trinta minutos de jogo jogado, em que duas equipas de topo lutaram arduamente pela vitória. 

É pena que uma partida tão esperada, vista no estádio por milhares e cá fora por milhões, tenha ficado ferida de morte por uma única situação. 

Esta constatação de facto não procura desvalorizar o sucedido. Obviamente. 

O que vimos foi feio e pressupõe responsabilização (não confundir com catastrofização).

De facto, um jogador que estava de pé pisou a cabeça de outro que estava caído, usando os pitons da sua bota. O adversário estava momentaneamente indefeso e esse contacto colocou em risco a sua integridade física. O facto cresce em gravidade por saber-se que a zona atingida é a mais sensível do corpo humano, aquela que as leis de jogo mais protegem.

Independentemente de todo e qualquer juízo de valor que se faça sobre intenção ou inevitabilidade - compreendam que não entre nessa conversa -, este tipo de gestos pressupõem uma única decisão disciplinar: a exibição do cartão vermelho direto. 

Como vimos, a equipa de arbitragem não tomou essa opção. Errou. E isso é algo que deve assumido com humildade, frontalidade e honestidade.

Naturalmente que erros desta dimensão têm outro impacto, mas as consequências daí resultantes não devem ter fim meramente punitivo. 

Devem levar a uma análise exaustiva que responda aos porquês, procurando perceber o que correu mal, que bloqueios ocorreram, que falhas técnicas e comunicacionais surgiram e, mais importante, como se pode garantir que nunca mais se repitam em idênticas circunstâncias.

Se o espírito não for esse, de nada valem jarras ou enforcamentos públicos. A ideia não pode ser a de servir sangue ao povo, mas diagnosticar e corrigir. 

A outro nível, convenhamos que esta forma redutora de ver futebol é algo muito nosso, que não nasceu apenas na final do Jamor. Culturalmente continuamos a permitir que paixão cegue a razão, analisando tudo com demasiada efervescência e emoção. Essa proximidade impede-nos de ver a outra distância aquilo que tantas vezes merece mais atenção e reflexão. Naturalmente que esse excesso serve a muitos e é até potenciado por quem prefere que as coisas se mantenham assim, mas não é a forma certa de estar no jogo ou na vida. 

Não me parece que se consiga mudar esse chip comportamental tão cedo, mas este é apenas um dos muitos desafios que os portugueses e o país enfrentam por estes tempos. 

Nota final - Os insultos, ofensas e ameaças entretanto dirigidos a alguns dos envolvidos (e respetivas famílias) constituem crime previsto com pena de prisão no Código Penal Português. 

Muitos foram cometidos publicamente, à boca desarmada, por pessoas bem identificadas, que têm cargos relevantes ou responsabilidades adicionais na formação de opinião. 

Deviam ser responsabilizadas institucionalmente e alvo de queixa-crime, respondendo em sede própria pelo impacto danoso das atrocidades que disseram e escreveram. Parece que vale tudo, mas não vale e é preciso colocar linhas vermelhas a quem mostra sucessivamente que não sabe o que é opinar com decência, respeito e educação. 

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt