Opinião

Portugal está na final do Mundial de futsal feminino. Eu já joguei contra elas: é uma sensação de sufoco, de parar o vento com as mãos

As jogadoras da seleção nacional festejam a passagem à final do Mundial de futsal após vencerem a Argentina, nas meias-finais
As jogadoras da seleção nacional festejam a passagem à final do Mundial de futsal após vencerem a Argentina, nas meias-finais
Ezra Acayan - FIFA

Tive o privilégio de conhecer, em contexto competitivo, muitas das jogadoras da Seleção que vão, no domingo (11h30, RTP1), defrontar o Brasil na final do Campeonato do Mundo. Fizeram de mim uma jogadora que até então eu própria desconhecia. Aconteceu o chamado e conhecido fenómeno “abre-olhos”. Elas obrigaram-me a pensar mais rápido, a correr mais, a decidir sem tempo. Todas são feitas de matéria rara

Portugal está na final do Mundial de futsal feminino. Eu já joguei contra elas: é uma sensação de sufoco, de parar o vento com as mãos

Leonor Burguete

Jogadora de futsal do Belenenses

O que os meus olhos veem, o meu coração sente. E eu tenho sentido todos os dias que Portugal faz história neste capítulo “Futsal”. Pode parecer história curta, porque convém esclarecer que este é o primeiro ano em que a FIFA organiza um Campeonato do Mundo de futsal feminino. Mas vou reforçar porque isto é para sempre: pela primeira vez, a Seleção Feminina de futsal está na final do Campeonato do Mundo, e não foi por acaso.

É absolutamente entusiasmante que tenhamos, de conquista em conquista, e de forma consistente e com qualidade, chegado ao jogo mais esperado — contra o Brasil. Para quem viveu este sonho como adepta ou jogadora, é impossível não sentir orgulho. Para quem ainda acha que “futsal” e “feminino” não combinam, ponha os olhos nesta Seleção. À Seleção, saibam que não estão sozinhas — carregam consigo um país inteiro.

Depois de uma meia-final desequilibrada contra a Argentina, decidida relativamente cedo com uma exibição notável de Portugal, é-nos permitido sonhar. Sobre a meia-final não há muita estória, e ficou claro: esta equipa sabe o que faz, e isso só pode dar confiança para o que aí vem.

No entanto, esta história não se resume ao resultado. Para mim, há uma dimensão pessoal que não posso ignorar, e sobre a qual falo com emoção.

Tive o privilégio de conhecer muitas das jogadoras da Seleção em contexto competitivo. Fizeram de mim uma jogadora que até então eu própria desconhecia. Aconteceu o chamado e conhecido fenómeno “abre-olhos”. Elas obrigaram-me a pensar mais rápido, a correr mais, a decidir sem tempo. Jogar contra elas é uma sensação de sufoco, de falta de ar, de parar o vento com as mãos. No futsal é assim mesmo: tudo é exponenciado. A quadra é pequena, as balizas estão perto, e simplesmente não há espaço, ponto final! É o confronto puro do talento.

Por estas razões, e outras tantas, sou ferozmente apaixonada pela modalidade. Nesta, chega ao topo quem é realmente muito bom, quem tem talento inato, e, claro, quem trabalha para isso. Por esse conjunto de condições, não cheguei ao topo (e o quanto eu gostava que a minha história tivesse sido outra!). Cheguei, no entanto, a um nível que me permitiu ter sido feliz por enfrentar quem admiro — e isso vale um mundo inteiro. Seguem três exemplos, mas poderiam ser outros.

Ana Azevedo, a capitã. Com ela em campo, há uma varinha mágica a orquestrar tudo. É ela que marca o ritmo do jogo: acelera quando quer, desacelera quando o jogo pede. Poucas têm esta capacidade. A Ana inspira também por outra coisa. É prova para calar quem pensa que já não há idade para certas coisas. A Ana joga muitíssimo, e por muito que o tempo passe, continua sem beliscar o seu legado.

Janice é outra referência. A bola não é de todo um corpo estranho, pois simplesmente não descola do seu pé. Faz sentir aquela (boa) inveja do “quem me dera” ter a capacidade dela em fazer o que quiser com a bola. Mas a Janice é mais: é humildade, é altruísmo, é jogar pelo coletivo em todas as zonas do campo.

E Ana Catarina? Absurdamente feita de imbatibilidade. Parece que raramente cumprimenta os dias maus. A Ana Catarina faz com que a baliza pareça um Golias impossível de vencer, e leva à frustração de tentar, tentar, e não dar. Quantas vezes as jogadoras pensam “não vale a pena, a bola não vai entrar”. E isto é poder! Sem dúvida que em cada jogo comprova porque é considerada a melhor guarda-redes de futsal do mundo, e com ela a baliza está blindada.

As jogadoras da seleção nacional festejam a vitória, por 7-1 contra a Argentina nas meias-finais do Campeonato do Mundo
Ezra Acayan - FIFA

E estes são exemplos dignos de um grupo inteiro, em que todas, todas, todas, são feitas de matéria rara, e que combinam com relativa facilidade. A elas só podemos agradecer por nos desafiarem ao mais alto nível, sendo possível que grande parte das vezes não fazem a mais pequena ideia do impacto positivo que têm nas companheiras e nas adversárias.

Apesar desta genialidade individual, do outro lado está igualmente muito talento e poderio. Esta Final pedirá sobretudo a capacidade do coletivo da nossa Seleção a diversos níveis. Revelador disso foi o resultado da outra meia-final (1-4) entre titãs: campeã Europeia (Espanha) e campeã da Copa América (Brasil). E com Portugal não será diferente.

Vai ser duro nos 40 minutos cronometrados, mas sobretudo nos cerca de 90 minutos jogados dentro e fora de campo, com e sem bola. Será um jogo com elevado grau de dificuldade para Portugal: físico e mentalmente exigente. Mas vamos levantar a cabeça, verticalizar a postura e enfrentar de frente. Nomes como Amandinha, Ana Luiza, Emilly, Taty, Bianca impõem respeito, mas não devemos ter demasiado respeito porque não é impossível. É nestes momentos que devemos recordar a história que temos: o Mundial Universitário em 2022, numa final de emoções, também ela entre estas mesmas nações de língua portuguesa.

A equipa deu o corpo, a alma, e a volta ao marcador. Acreditaram literalmente até ao último segundo, tendo sido uma verdadeira lição e inspiração para todos. O que parecia um vislumbre, tornou-se real, e isto faz-me acreditar que o desfecho na final possa ser igualmente feliz. A estrada vai muito além do que se vê.

É de um adepto ficar ansioso, ou não?! Como apoiante da Seleção e da modalidade, estou entusiasmadíssima por ver os modelos de jogo ofensivo e defensivo a acontecer, a criatividade a dar espetáculo, e a luta por vencer na sua forma orgânica. Mas por favor: que nos divirtamos todos, vocês e nós, nesta final.

Agradecer a este grupo o facto de poder falar com orgulho pelo mundo fora da Seleção Feminina de futsal de Portugal. É muito mais fácil assim promover a modalidade, e em particular o feminino. Muito, muito obrigada!

Vamos sonhar com os pés no chão. O talento tem forma, tem conteúdo e não é transparente. À Seleção, estar na final é o sonho que qualquer jogadora, de menina a mulher, tem. E Portugal está lá!

O palco é vosso — que muito fizeram por merecer. E aconteça o que acontecer, uma coisa é certa: eu pavoneio-me com esta Seleção.

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