Na última eliminatória da Taça de Portugal foi dado um passo simbólico, mas importante, na forma como olhamos para a arbitragem. Pela primeira vez em jogos oficiais de âmbito nacional, os árbitros portugueses entraram em campo equipados com bodycams - no caso, micro-câmaras colocadas na zona do peito - pensadas não para controlar o jogo ou os jogadores, mas para mostrar uma outra perspetiva: aquela que têm ao longo dos noventa minutos.
A bodycam não mostra os lances como os vemos na televisão. Não oferece repetições claras nem ângulos elevados, com o conforto de quem observa sentado no sofá. O que nos mostra é o futebol de fora para dentro, a partir do centro do caos, onde tudo acontece de verdade.
O árbitro corre, muda de direção, ajusta o posicionamento e procura linhas de visão em espaços que se fecham constantemente. É o jogo do gato e do rato. Há jogadores a circular, corpos que colidem e decisões que têm de ser tomadas em frações de segundo, com informação visual incompleta e sob forte pressão emocional.
A perceção dessa diferença é, talvez, um dos pontos mais fortes desta ferramenta. Ao colocar o espetador na posição de árbitro, a bodycam ajuda a perceber algo que tantas vezes se ignora no debate público: decidir em campo é muito diferente do que analisar em estúdio ou em casa.
Mas esta inovação não se esgota na perspetiva que o árbitro tem no relvado. Também capta a comunicação, o som real de tudo o que se falou e escutou. Isso não aconteceu neste teste-piloto - passo a passo -, mas acontecerá em momentos futuros. Aí todos perceberão a forma como os árbitro falam, gerem conflitos e explicam algumas das suas decisões, tentando usar o tom certo no momento adequado. Mostrará o mesmo na interação dos jogadores para com ele.
A câmara permitirá ainda perceber a linguagem corporal de cada interveniente, a proximidade ou distância dos lances e a leitura de jogo. A antecipação, a prevenção, a reação. No fundo, todo o processo que conduz à avaliação.
É por ter um conjunto de valências tão amplo que esta tecnologia é, acima de tudo, uma poderosa ferramenta de pedagogia para árbitros (permite rever decisões com honestidade e contexto, percebendo o que correu menos bem e o que pode ser corrigido); para formadores (porque oferece material cru e insubstituível, que permite melhorar processos e afinar procedimentos); e para o público, para o adepto comum (porque humaniza a arte de arbitrar, provando que alguns momentos de desacerto em campo não nascem por malícia ou negligência, apenas pela complexidade da avaliação ou por má escolha posicional).
Há também um outro horizonte que merece reflexão neste âmbito.
Num país onde a maioria dos jogos são disputados longe dos holofotes, em milhares e milhares de jogos não profissionais, distritais e de formação, o possível uso de bodycams pode representar um salto qualitativo na proteção de árbitros, jogadores e técnicos. Para os mais jovens que agora abraçaram esta carreira, este instrumento pode ser um fator de segurança acrescida, um elemento dissuasor de comportamentos de violência verbal ou física. Um meio para educar, identificar padrões e responsabilizar quem não está à altura de entrar em recintos desportivos. A bodycam será essencial na criação de ambientes seguros para todos.
Esta tecnologia, como qualquer outra ao serviço do jogo, por si só raramente resolve tudo, mas quando bem pensada, enquadrada e potenciada, pode aproximar mundos que insistem em permanecer de costas voltadas: o de quem decide e o dos muitos que julgam quem decide.
Talvez este seja o maior mérito desta experiência levada agora a cabo pelo Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol: não mostrar árbitros como heróis ou vilões, mas como profissionais a operar em território difícil, imperfeito e profundamente humano.
E isso, num futebol tantas vezes refém do ruído constante, é uma vitória silenciosa. Uma entre tantas outras.
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