O futebol decidiu pensar-se a si próprio
O 1º Congresso do Futebol Português demonstrou algo essencial: o futebol não deve ser apenas emoção e bola a rolar. Deve ser também pensamento, construção e responsabilidade partilhadas
Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol
O 1º Congresso do Futebol Português demonstrou algo essencial: o futebol não deve ser apenas emoção e bola a rolar. Deve ser também pensamento, construção e responsabilidade partilhadas
Há momentos na vida de uma organização em que é sensato parar, olhar para dentro e, sobretudo, ouvir.
O primeiro Congresso do Futebol Português, promovido pela direção da Federação Portuguesa de Futebol, foi exatamente isso: um exercício coletivo de reflexão, transparência e construção de futuro.
Desengane-se quem acha que este foi mais um evento para cumprir calendário. Não foi, nem foi sequer um fórum de retórica inconsequente. Foi sim o culminar de um processo iniciado muito antes, no próprio programa a que esta direção se apresentou a eleições e que previa a criação de um espaço estruturado, plural e independente, onde o futebol português pudesse discutir os seus próprios desafios.
Esse processo materializou-se na criação de dezanove comissões temáticas - seis permanentes, treze não permanentes -, abrangendo áreas multidisciplinares como o futebol profissional e não profissional, o futebol feminino e futsal, o futebol de praia, arbitragem, as competições, a formação, a governance, etc.
O que tornou este caminho verdadeiramente diferenciador não foi apenas o conteúdo, mas o método: os membros das comissões não foram escolhidos por proximidade ou alinhamento prévio, mas indicados institucionalmente (com abertura e transparência) em função dos seus perfis e competências. O objetivo? Assegurar diversidade de pensamento, experiência e sensibilidade.
A esses juntaram-se também alguns peritos indicados pelo mesmo principio, para enriquecerem o debate e acrescentarem valor à reflexão.
Assim foi. Durante alguns meses estas comissões reuniram, estudaram, ouviram e confrontaram ideias, construindo propostas. Não o fizeram como um mero exercício académico, mas com a responsabilidade de produzir contributos que pudessem transformar-se em medidas concretas. Em ideias concretizáveis.
Este 1⁰ Congresso do Futebol Português, que decorreu no final de janeiro na Cidade do Futebol, foi o primeiro momento de partilha desse trabalho. O momento em que o futebol português, em vez de se limitar a reagir aos problemas, decidiu publica-los com clareza e de portas escancaradas.
Estes espaços são absolutamente necessários nos dias de hoje, porque é muitas vezes a partilha de ideias e de experiências que conduz à evolução, à melhoria de processos, à criação de mais talento.
O mais importante nem é o que foi discutido, mas o que se propõe fazer. Muitas das propostas apresentadas por essas comissões serão integradas no quadro regulamentar já a partir da próxima época. Outras servirão de base a reformas de médio ou longo prazo.
Não foram palavras soltas nem intenções vagas. Foram contributos válidos que passarão a fazer parte da arquitetura real do futebol português.
Este Congresso demonstrou ainda algo essencial: o futebol não deve ser apenas emoção e bola a rolar. Deve ser também pensamento, construção e responsabilidade partilhadas.
Quando damos voz a diferentes agentes desportivos, quando criamos processos claros de participação, quando transformamos ideias em decisões, estamos a fazer mais do que gerir uma modalidade apaixonante: estamos a unir as pessoas e a redefinir os alicerces de uma indústria madura, credível e mais preparada para o futuro.
Em fevereiro há mais.
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