Menos ruído, mais justiça. É sempre um bom principio, que raramente conseguimos materializar na vida ou no desporto.
A vídeo-arbitragem nasceu com uma promessa muito simples: corrigir erros claros e óbvios, em momentos transcendentes do jogo. Nem mais, nem menos.
Ao longo dos anos esse princípio foi sendo posto à prova, fruto de uma tentação bondosa e altruísta: a de intervir mais para o jogo ser mais justo. Se eu vejo e acho, eu quero ajudar a corrigir.
Problema? O jogo pára, os jogadores esperam, as pessoas enervam-se, as decisões contestam-se.
Ao longo do tempo, a posição da UEFA tem sido sempre coerente: o VAR não é um “árbitro-extra” nem um mecanismo para re-arbitrar futebol: é uma rede de segurança. Um paraquedas. E só deve atuar em categorias bem definidas, quando o erro for claro, óbvio, factual ou objetivamente comprovável.
A grande preocupação do organismo europeu tem sido proteger o jogo e a sua perceção, o seu ritmo e emoção, a autoridade do árbitro. O que se percebeu é que, quanto mais o VAR entra em zonas cinzentas, mais se afasta dos objetivos que presidiram à sua introdução.
A decisão recente do IFAB, na mais recente reunião anual, manteve o protocolo-base, mas introduziu um ajustamento relevante: a possibilidade do instrumento corrigir fatualmente segundos amarelos que originem expulsões injustas.
Isso não transforma o VAR numa segunda instância disciplinar, apenas evita uma injustiça evidente em casos flagrantes. O mesmo se aplica à possibilidade, enquanto opção competitiva, de corrigir pontapés de canto mal assinalados quando o erro for claro, imediatamente percetível e a correção não implicar demora.
Reparem, não há ampliação do campo de intervenção, há retificação de erro factual que pode afetar a verdade desportiva. Não há uma mudança filosófica, há uma consolidação técnica. O fio condutor mantém-se. A matriz continua a ser a da mínima intervenção e a da preservação do árbitro como decisor principal.
Como já todos percebemos, o verdadeiro desafio nunca foi a norma escrita, mas a sua aplicação prática. O perigo permanece o mesmo: a deriva para o “quase claro”, para o “parece evidente”, para o “na minha opinião”.
A partir do momento em que o achismo substitui a certeza, o critério deixa de ser factual e passa a ser interpretativo. E esse nunca será consensual, unânime ou bem aceite. É aí, é precisamente aí, que regressamos ao território da subjetividade. E é aí que perdemos consistência, credibilidade e compreensão pública. Está muito claro, está diagnosticado, é e tem sido assim em todas as ligas que abraçaram a vídeo-tecnologia.
Neste momento e por muito que custe - as imagens têm potencial tremendo para resolver más decisões -, a linha técnica mais fiável, aquela que deve orientar árbitros e vídeo-árbitros, é a mais restritiva: facto não é opinião. Evidência não é interpretação. Clareza não é sensação.
A dinâmica, o valor e impacto que o futebol moderno tem a vários níveis não podem ser sufocados pela tecnologia da interrupção constante.
Esta visão, defendida publicamente por Roberto Rosetti, diretor da arbitragem da UEFA, em momentos recentes, aponta para um modelo de VAR cirúrgico, disciplinado, menos interventivo. Um modelo capaz de impedir injustiças gritantes.
É um equilíbrio delicado, mas inevitável.
Demasiada intervenção corrói a autoridade, mina a justiça, afeta a qualidade. Entre esses dois polos tem que se construir a credibilidade da arbitragem contemporânea e a melhor aplicação a dar a uma ferramenta fundamental mas sensível.
Não é à toa que, em outras modalidades ou atividades profissionais, o grande sucesso da tecnologia assenta quase sempre na correção de factos, não de opiniões.
No futebol, é nos foras de jogo, na bola que entra ou não entra, na falta dentro ou fora da área, na agressão clara que o VAR atinge o seu expoente máximo. A unanimidade. Em tudo o resto, ou é demasiado evidente e todos percebem ou será sempre profundamente controverso.
É suposto unir, não dividir.