José Mourinho chegou em setembro de 2025 ao Benfica para a sua segunda passagem pelo clube, 25 anos depois
Diogo Cardoso
Quando José Mourinho chegou, foi apresentado como um semi-deus que rapidamente iria levar o Benfica ao sucesso. É o preço a pagar pelo valor do currículo, também pelo impacto emocional que deixou em quase todos os clubes por onde passou. Este regresso a Portugal coloca-o de vez num lugar de humanidade, incapaz de contrariar a gestão errática e imediatista das águias - para a qual, inevitavelmente, também tem contribuído
O clássico entre Benfica e Porto foi mais do que um jogo. Não pela rivalidade histórica, não pelo carácter decisivo nas contas do título, mas porque representou na perfeição a forma como os dois clubes abordaram a temporada. Mais uma vez, os encarnados trocaram de treinador na fase inicial e o desencanto com o plantel - particularmente, com os reforços - não podia ser mais evidente. Agora, sofrem as consequências de um planeamento pouco rigoroso, com decisões impulsivas nas entradas e nas saídas. As peças encaixaram demasiado tarde, à boleia de lesões. No Porto, a chegada de Farioli permitiu um alinhamento perfeito no ataque ao mercado. Sabendo como queriam jogar e valorizando a aposta em perfis atléticos, os dragões rapidamente amadureceram no estilo.
Durante muitos anos, dizia-se que os clubes portugueses sofriam quando jogavam na Europa. Lá fora, os adversários estavam noutro patamar em termos de ritmo e capacidade nos duelos. O Porto “roubou” essa lógica e adaptou-a ao futebol nacional. Na maior parte dos encontros, domina no plano físico. Para o HxH de Farioli, era indispensável encontrar máquinas de combate. Bednarek, Kiwior, Alberto Costa e Froholdt, entre outros, dão sempre garantias na pressão e cumprem meticulosamente as funções ofensivas. Numa equipa tão estruturada, com um treinador obcecado pelo controlo e pela gestão de minutos, ficamos com a sensação de estar a ver onze robôs empenhados em cumprir a missão.
Descrevendo o rival, Mourinho (como outros) fala na previsibilidade colectiva. É exactamente aí que quer viver Farioli: na repetição, no conhecimento de onde estão todas as peças em campo, na identificação da linha de passe para atacar as costas da pressão. Isso valeu uma primeira parte de excelência no relvado da Luz. Chamando seis jogadores à construção, com um losango a envolver Diogo Costa e movimentos de atracção constantes, o Porto conseguiu impor o próprio registo e deixou o Benfica perdido. Por um lado, sem assumir referências individuais a todo o campo, a inferioridade dos encarnados tornou-se fatal. Isso é trabalho de treinador. Mas a crítica não ficou por aí.
Leandro Barreiro a celebrar o golo com que empatou o clássico na Luz, aos 88 minutos
Nem sequer dá para discutir a análise de Mourinho ao que se passou. Além de ter Rafa na primeira linha de pressão, houve necessidade de utilizar Richard Ríos e Enzo Barrenechea a meio campo. Foram expostos inúmeras vezes, perdendo a referência directa (Froholdt escapa ao argentino, no 0-1). A tarefa era exigente, há que dizê-lo, mas não só não deram estabilidade como também não provocaram nada no plano ofensivo. Custaram muitos milhões e, até se lesionarem, eram os titulares no Benfica dos cinco médios. O funcionamento da dupla composta por Aursnes e Barreiro provou que era possível atingir outro patamar de critério e compatibilidade. Num efeito dominó, Schjelderup e Prestianni (Sudakov, a espaços) deram clareza ofensiva e afirmaram-se no 11.
Todos já estavam no plantel encarnado, obrigados a interpretar outras posições ou simplesmente sem a oportunidade de mostrar talento. Mourinho hesitou, mas acabou por se deixar convencer. Precisou de tempo e de errar nas escolhas. Quando chegou, foi apresentado como um semi-deus que rapidamente iria levar o Benfica ao sucesso. É o preço a pagar pelo valor do currículo, também pelo impacto emocional que deixou em quase todos os clubes por onde passou. Este regresso a Portugal coloca-o de vez num lugar de humanidade, incapaz de contrariar a gestão errática e imediatista das águias - para a qual, inevitavelmente, também tem contribuído. Ao contrário do Porto, que tem um plano transversal e que se reflecte no estilo, o Benfica joga consoante as características de quem está em campo.
A nostalgia ainda vai pesando nas decisões, como se vê pelo regresso de Rafa. Entre a necessidade institucional de ganhar e a necessidade individual de protecção, Ríos, Barrenechea e Ivanovic surgem como problemas que acabam no treinador mas não começaram no treinador. O Porto soube ir atrás da harmonia estrutural.