É habitual falar-se muito de futebol e, em particular, de arbitragem. Fala-se nos programas de televisão, nas redes sociais, nas conferências de imprensa, nas conversas de café e em todos os circuitos onde pessoas interagem com pessoas. É a paixão a manifestar-se da forma como está culturalmente formatada para se manifestar: com demasiada paixão, entusiasmo e pitada de irracionalidade.
Mas nesses espaços o tema da arbitragem raramente é abordado no seu todo. Cinge-se à espuma, ao jogo na sua versão mais exposta e dominante.
Não deixa de ser curioso refletir sobre isto.
Sabiam que são apenas vinte e quatro os árbitros habilitados a dirigir jogos da primeira categoria nacional? Sim. Vinte e quatro.
É sobre esses e apenas sobre esses que recai a maioria dos comentários, análises, críticas, slow motions e, tantas e tantas vezes, insultos e ameaças pessoais. A perceção pública assenta em bloco nesse grupo restrito, o que é compreensível: são os que arbitram jogos das equipas com mais adeptos, nos maiores palcos, com profissionais de excelência, onde cada decisão pode ter peso tremendo a nível emocional, desportivo e financeiro.
O problema é que essa visão deixa frequentemente na sombra a verdadeira dimensão da arbitragem portuguesa. Os nossos árbitros de elite representam uma fração mínima de um universo que ronda atualmente os 4400.
Em termos percentuais, estamos a falar de pouco mais de 0,5% do total.
Todos os outros são a base que semanalmente assegura a realização de milhares e milhares de jogos em todo o território nacional: dos mais jovens aos distritais/regionais de seniores, das competições nacionais não profissionais a todas as partidas de futebol feminino, do futsal ao futebol de praia.
São campos diferentes, realidades distintas, exigências próprias, mas todos com um elemento comum: alguém que arbitra. É aí, é precisamente aí, que entra a dimensão menos visível do trabalho desenvolvido na arbitragem em Portugal.
Longe dos holofotes, existe um ecossistema inteiro de formação, acompanhamento, avaliação e desenvolvimento, que sustenta a qualidade dos quadros nacionais de árbitros.
Todos começam a carreira a dirigir jogos dos mais novos, muitas vezes perante meia dúzia de pessoas. Tal como os jogadores, é aí que aprendem a analisar, a decidir, a gerir conflitos, a comunicar com jogadores, a lidar com treinadores, a suportar a pressão dos adeptos, a conviver com a dúvida, a perceber a dificuldade da missão. É aí que começam a ser observados, acompanhados, avaliados, evoluindo ou não em função do perfil, postura, compromisso e desempenho.
A elite nasce na base. Toda a elite nasce na base. É por isso que qualquer visão séria e ponderada sobre arbitragem tem de olhar para o bolo e não para a fatia mais visível.
A qualidade dos árbitros da I Liga tem que ser trabalhada muito antes de chegarem lá. Começa nos distritais com proximidade, ajuste, cultura de exigência e de responsabilidade.
O objetivo é simples: prepará-los para voos mais altos, oferecendo-lhes anos preciosos de aprendizagem acumulada.
Enquanto os mais experientes dirigem jogos de grande visibilidade, milhares de outros continuam o seu percurso no anonimato, em campeonatos menos mediáticos, conciliando essa atividade com a vida profissional e familiar.
Quando se fala de arbitragem, vale a pena ter em conta esta enorme massa escondida sob a ponta do iceberg. Essa comunidade de meninas e meninos que realiza seis, sete jogos por fim de semana, para garantir a prossecução de todas as competições que decorrem no país.
Para nós a arbitragem não se resume à elite. Há outra que a sustenta e essa é e terá que ser sempre a nossa grande prioridade.