Em tempo de decisões e com tanto ainda por definir, há geralmente um equívoco que tende a instalar-se com facilidade no espaço público: a ideia de que os árbitros mudam critérios ao longo da época, como se as regras do jogo fossem maleáveis, ajustadas ao sabor do momento ou influenciadas pela pressão exterior.
Não são. E é importante dizê-lo com clareza.
No início de cada época há um momento estruturante, rigoroso e transparente, onde são apresentadas as alterações às leis de jogo e definidas as recomendações técnicas para o que se jogará de agosto a maio.
Na sessão realizada no arranque de 2025/26 estiveram presentes árbitros, árbitros assistentes, vídeo árbitros, observadores e, a nosso convite, todas as sociedades desportivas do futebol profissional. Poucos dias depois, realizámos idêntica ação de formação com jornalistas, especialistas em matéria de arbitragem e demais comentadores desportivos. A todos foram enviados convites através dos respetivos órgãos de comunicação social.
Mais tarde - antes do arranque dos respetivos campeonatos -, falámos também com clubes da Liga BPI, Liga 3 e Campeonato de Portugal.
Ninguém ficou de fora da convocatória, porque era importante para nós que o ecossistema do futebol soubesse, em sede própria, o que mudou nas regras e que orientações macro seriam seguidas pelos árbitros.
O que ali foi dito, de forma clara e participada, constituiu aquela que foi e é a base de trabalho da arbitragem para todas as provas nacionais de futebol.
Importa reforçar a ideia de que as orientações ali veiculadas não foram provisórias nem sujeitas a revisões casuísticas. Nenhuma foi reescrita a meio, nenhuma adaptou-se a ciclos mediáticos, nenhuma moldou-se à conveniência de quem analisa o jogo com base noutros pressupostos.
As recomendações permanecem as mesmas. São estáveis e coerentes, ainda que nem sempre aplicadas como gostaríamos. Lá dentro, acerto e erro andam de mãos dadas. A função é exigente e nem sempre é possível tomar as decisões ideais. É assim aqui, na La Liga, na Premier League, na Bundesliga, na Ligue 1 e em qualquer outra competição de topo além-fronteiras.
É fundamental que a estabilidade que decorre daquelas indicações iniciais seja preservada, porque garante previsibilidade, credibilidade competitiva e, acima de tudo, equidade.
Dito isto, separaremos o essencial do acessório.
Uma coisa é a matriz técnica - os princípios e critérios -, que não se alteram a meio do jogo. Outra, diferente, são as afinações inerentes àquilo que os jogos nos vão oferecendo ao longo da época. O ritmo evolui, as ações dos jogadores desafiam, os padrões definem-se, as circunstâncias alteram-se e isso pressupõe adaptação e encaixe, rumo ao objetivo de sempre: ter decisões justas e consistentes.
Acontece exatamente o mesmo com as equipas técnicas, que tantas vezes reajustam as suas estratégias ou dinâmicas com o decorrer dos jogos, em função da realidade do momento.
Mas melhorar não é mudar. Ajustar não é alterar. Afinar não é inverter princípios pré-definidos.
Infelizmente essa distinção é muitas vezes ignorada. Não raras vezes alimenta-se a ideia de mudança de abordagem onde existe, na verdade, um esforço contínuo de ajustamento. Confunde-se evolução com contradição.
Quando repetida muitas vezes, a tirada belisca ainda mais a perceção pública de uma função já de si sob escrutínio negativo.
É importante que nós, todos nós, percebamos bem o papel e contributo que queremos desempenhar na defesa do bom-nome e imagem desta indústria.
A arbitragem de elite portuguesa, como a das principais ligas internacionais, trabalha alinhada com as melhores práticas, definidas ano a ano pelas entidades que tutelam o jogo. Há um quadro técnico comum, sustentado e partilhado.
Ser claro sobre isto nada tem que ver com corporativismo, mas com reposição da verdade. E essa pode não interessar a todos, mas é fundamental para nós, que estamos deste lado.