Fernando Pimenta ganhou no K1 1.000m da Taça do Mundo de canoagem em Szeged aos 36 anos, à frente de medalhados olímpicos. Não foi uma vitória apesar da idade. Foi, em parte, também por causa dela. A ciência ajuda a perceber porquê — e obriga-nos a repensar o que significa preparar um atleta para durar
Fernando Pimenta venceu em Szeged com 3:22.25 numa final de K1 1000m que reuniu alguns dos nomes mais fortes da canoagem mundial — entre eles o húngaro Bálint Kopasz, medalha de bronze em Paris 2024, e o australiano Thomas Green, campeão olímpico no K2 1000m em Tóquio 2020. O tempo registado é o melhor de sempre numa Taça do Mundo de K1 1000m, batendo o seu próprio recorde pessoal na prova. Mais do que um triunfo desportivo, foi uma pequena provocação cultural a uma sociedade obcecada com juventude, novidade e velocidade.
Aos 36 anos fez algo que a nossa cultura tem dificuldade em compreender: venceu.
Não venceu “para a idade que tem”. Não venceu como excepção simpática. Venceu mesmo.
À frente de medalhados olímpicos. Num desporto onde milésimos contam. Num contexto em que o corpo é constantemente escrutinado como se tivesse prazo de validade.
O atleta mais experiente não é apenas “alguém que resistiu mais anos”. É frequentemente alguém que aprendeu a sofrer melhor. A recuperar melhor. A decidir melhor. A distribuir recursos físicos, emocionais e cognitivos de forma mais eficiente.
E talvez seja precisamente por isso que esta vitória seja maior do que uma medalha.
O erro de reduzir performance à fisiologia
Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para a idade apenas pela lente da perda: menos explosão, menos recuperação, menos margem, menos futuro.
E sim, o envelhecimento traz alterações fisiológicas reais. A ciência confirma-o. Estudos sobre atletas masters mostram uma tendência de declínio progressivo em variáveis como consumo máximo de oxigénio, potência máxima e capacidade de recuperação biológica com o avançar da idade (Lepers & Stapley, 2016).
Mas talvez o erro esteja precisamente em assumir que a performance depende apenas disso.
Porque o alto rendimento não vive apenas da potência muscular. Vive da capacidade de adaptação. E essa dimensão — ao contrário do que muitas vezes assumimos — também se treina.
Maturidade psicológica também é uma competência de performance
A investigação em psicologia do desporto documenta que atletas experientes demonstram vantagens perceptivo-cognitivas mensuráveis: antecipam com maior precisão, processam informação relevante de forma mais eficiente e tomam decisões mais rápidas em condições de pressão temporal (Mann et al., 2007; Williams et al., 2011). Estas competências não são inatas — constroem-se através de prática deliberada e exposição repetida a contextos de alta exigência competitiva.
A maturidade competitiva não aparece, por isso, por acaso. Constrói-se através de anos de exposição à pressão, de aprendizagem emocional, de tolerância ao desconforto, de erros, falhas, recuperação e readaptação contínua.
Há, no entanto, uma nuance que a narrativa da “maturidade que vem com os anos” frequentemente esconde: a experiência acumulada não se traduz automaticamente em vantagem competitiva. Traduz-se em vantagem quando é treinada de forma deliberada — e isso inclui, de forma explícita, o treino das competências psicológicas.
NUNO BOTELHO
A literatura científica é clara neste ponto. Uma revisão de revisões publicada no International Journal of Sport and Exercise Psychology analisou trinta revisões e meta-análises sobre o treino de competências psicológicas (PST) em atletas e concluiu que existem evidências consistentes do seu efeito positivo na performance desportiva — particularmente nas áreas de gestão do stress, regulação da ansiedade, autoconfiança e foco competitivo (Lange-Smith et al., 2024).
O que esta evidência nos diz é algo que o sistema desportivo ainda assimila com dificuldade: o atleta que chega aos 36 anos a competir ao mais alto nível não chegou lá apenas porque o corpo resistiu. Chegou lá porque, em algum momento da sua trajectória, aprendeu a gerir melhor a pressão, a recuperar melhor dos reveses, a manter o foco quando o corpo acusa o esforço. E essas competências — ao contrário do que muitas vezes se assume — não são traços de personalidade. São capacidades treináveis.
O problema é que o desporto (e o de alto rendimento incluido) ainda tende a tratar o treino mental como suplemento, como algo que se acrescenta quando sobra tempo ou quando a crise já chegou. A ciência sugere exactamente o contrário: o desenvolvimento sistemático de competências psicológicas, integrado desde cedo e de forma contínua na preparação dos atletas, é um dos factores que mais consistentemente distingue quem consegue traduzir potencial em resultados — e sustentá-los ao longo do tempo.
Do sponsorship à sociedade: o preconceito é transversal
E isto deveria interessar-nos muito para lá do desporto.
Porque vivemos numa cultura que continua a confundir juventude com competência. Que valoriza intensidade imediata acima de sustentabilidade. Que trata experiência como desgaste em vez de capital adaptativo. E que — no desporto como nas organizações — tende a desinvestir em quem já não encaixa na narrativa comercial da “juventude promissora”.
É impossível elogiar publicamente a longevidade competitiva e, ao mesmo tempo, assistir ao abandono sistemático de atletas experientes assim que passam determinada idade. Muitas carreiras terminam demasiado cedo não por ausência de capacidade — mas por ausência de apoio, investimento e visão de longo prazo. O preconceito não está apenas na cabeça das pessoas. Está também nos contratos que não se renovam, nos patrocínios que não chegam e nas apostas que o sistema recusa fazer.
Tamas Kovacs/Getty
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido a idade. Talvez tenha sido a nossa dificuldade em reconhecer que performance sustentável exige tempo, continuidade e a coragem de apostar em quem já provou que sabe durar.
Fernando Pimenta venceu uma Taça do Mundo. Mas talvez o mais importante tenha sido outra coisa: lembrar-nos que alguns limites são fisiológicos… e outros são preconceitos bem treinados que habitam dentro de todos nós e na sociedade em geral.
Referências científicas
Lange-Smith, S., Cabot, J., Coffee, P., Gunnell, K., & Tod, D. (2024). The efficacy of psychological skills training for enhancing performance in sport: A review of reviews. International Journal of Sport and Exercise Psychology, 22(4), 1012–1029. https://doi.org/10.1080/1612197X.2023.2168725
Lepers, R., & Stapley, P. J. (2016). Master athletes are extending the limits of human endurance. Frontiers in Physiology, 7, 613. https://doi.org/10.3389/fphys.2016.00613
Nota: este artigo define "master athletes" como atletas com mais de 40 anos. Pimenta tem 36 — a analogia é válida como tendência, não como equivalência directa.
Mann, D. T. Y., Williams, A. M., Ward, P., & Janelle, C. M. (2007). Perceptual-cognitive expertise in sport: A meta-analysis. Journal of Sport and Exercise Psychology, 29(4), 457–478.