Opinião

O combate à violência no desporto requer o empenho e compromisso de todos.

O combate à violência no desporto requer o empenho e compromisso de todos.

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

A violência associada ao desporto não é nova, exclusiva da modalidade ou limitada a episódios extremos. Como bem referiu recentemente o presidente da FPF, trata-se de um fenómeno persistente, transversal e estrutural, que exige vigilância permanente e ação contínua

O futebol português aproxima-se do final de mais uma época e, em breve, será tempo de balanços, de reposicionamento e de fixação de novas fasquias. Mas há mensagens que não devem ficar dependentes do calendário desportivo. Há causas que não podem durar apenas um ou dois fins de semana.

Uma delas é, indiscutivelmente, o combate à violência no desporto.

Há algumas semanas, a Federação Portuguesa de Futebol promoveu a campanha “Stop à Violência”, numa ação conjunta com a Liga Portugal, Governo e diferentes entidades ligadas ao fenómeno. O objetivo foi claro: mobilizar consciências, sensibilizar protagonistas e lembrar que o futebol, pelo impacto que tem, deve ser um espaço de paixão e respeito, nunca de agressão e intolerância. A campanha passou. O momento ficou para trás. As imagens perderam protagonismo, mas a mensagem não deve nem pode perder-se.

Sabemos que o problema permanece a espaços.

A violência associada ao desporto não é nova, exclusiva da modalidade ou limitada a episódios extremos. Como bem referiu recentemente o presidente da FPF, trata-se de um fenómeno persistente, transversal e estrutural, que exige vigilância permanente e ação contínua. O combate não se faz apenas com campanhas isoladas, mas com exigência, coerência e persistência institucional. E importa reconhecer que, neste domínio, têm sido dados sinais muito claros de compromisso.

A FPF assumiu publicamente que esta é uma luta sua e reafirmou a sua disponibilidade para intervir sempre que necessário. Mais recentemente, apresentou ao Governo português nove medidas para travar este flagelo, defendendo maior rapidez nos processos disciplinares, reforço dos mecanismos sancionatórios e agravamento de castigos nos casos mais flagrantes.

O princípio é simples: proteger o desporto implica não normalizar comportamentos que atentem contra a sua integridade. Mais importante: pressupõe deixar para trás os eternos diagnósticos e reflexões e avançar com ações concretas, com propostas exequíveis.

No meio disto tudo, o mais importante é percebermos que a violência raramente começa no episódio visível, mas nas palavras excessivas, nos discursos inflamados e na cultura da suspeição tantas e tantas vezes alimentada em espaço público.

No desporto, a violência cresce quando se desumaniza o adversário, quando se transforma o árbitro em vilão, quando o debate deixa de ser construtivo para ser agressivo, falacioso. É por isso que campanhas como esta têm valor acrescido.

O futebol continuará a ser emocional, apaixonado e controverso. Ainda bem. O problema nunca será a paixão, mas a sua rápida transição para o insulto, a ameaça, a intimidação ou a agressão.

Numa altura em que tanto se discute credibilidade, proteção do espetáculo, necessidade de trazer famílias aos estádios e até a captação de novos árbitros, há uma verdade simples que não pode ser ignorada: nada disso é possível num ambiente socialmente tóxico.

É uma luta contínua, que requer diagnóstico sério e ação eficaz. Que requer, sobretudo, o empenho e compromisso de todos.

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