Opinião

Os deuses menores da bola

Guardiola deu uma identidade ao Manchester City, Bernardo corporizou-a talvez como nenhum outro. Todos os agradecimentos parecem insuficientes. Nada pode apagar estes anos, os de maior sucesso na história do City, nem a ligação entre estes dois homens: o perfeccionista maníaco sempre a dar indicações da linha lateral e o seu delegado em campo, a encarnação do cérebro futebolístico do catalão

Há não muito tempo, Bernardo Silva recusou-se a participar na guarda de honra ao Liverpool, que conquistara o campeonato, alegando que, de onde ele vinha, não era uma tradição e que dispensava guardas de honra porque lhe bastavam os aplausos dos seus. Lembrei-me destas declarações no domingo, ao ver os seus companheiros de equipa e os jogadores do Aston Villa a alinharem-se para lhe prestar uma justíssima homenagem, quando ainda faltava meia hora para o final do jogo (facto que indignou alguns comentadores, como Wayne Rooney).

Os aplausos dos nossos confortam-nos, mas os aplausos dos rivais enobrecem-nos (e, já agora, enobrecem quem aplaude). Bernardo Silva e o seu treinador, Guardiola, perderam estes dois últimos campeonatos, mas nada pode apagar estes anos, os de maior sucesso na história do Manchester City, nem a ligação entre estes dois homens: o perfeccionista maníaco sempre a dar indicações da linha lateral e o seu delegado em campo, a encarnação do cérebro futebolístico do catalão.

O palmarés bastaria para que ficassem na história do clube, mas no adeus dos adeptos percebeu-se que a gratidão superava a mera contabilidade de títulos. Guardiola deu uma identidade ao City, Bernardo corporizou-a talvez como nenhum outro. Todos os agradecimentos parecem insuficientes.

Se Bernardo participou no período de maior sucesso do City e se esse sucesso coletivo ofusca, em certa medida, o seu brilhantismo individual – nunca ganhou o prémio de jogador do ano, nunca esteve no topo das estatísticas, a não ser na de jogador que mais quilómetros correu num jogo da Premier League (quem diria, Bernardo, o queniano?) – Bruno Fernandes tem sido a estrela (quase) solitária de uma era de vil e apagada tristeza em Old Trafford. E, no entanto, ele não só bateu o recorde de assistências numa época como levou para casa as distinções atribuídas por jornalistas e jogadores de futebol ao melhor jogador da temporada, o que num clube que se tornou num crónico perdedor é um feito notável.

Enquanto nos palcos do melhor campeonato do mundo dois jogadores portugueses recebiam os abraços de companheiros, a homenagem dos adversários e os aplausos emocionados dos adeptos, no Jamor, a um cidadão cabo-verdiano de 38 anos, de nome de batismo Ianique dos Santos Tavares, conhecido no futebol como Stopira (um jogador tem de ser de outras eras para ter como alcunha o apelido de um antiquíssimo internacional francês, Yannick Stopyra), vivia o momento mais sublime de uma daquelas carreiras forjadas em campos secundários de bancadas despovoadas.

Imagine-se o que não iria dentro da cabeça de Stopira quando, aos 113 minutos, foi chamado a bater o penálti que daria vantagem ao Torreense. Todos os sonhos traídos, todas as pequenas conquistas, todas as dores, todos os triunfos obscuros, trazidos de repente para um único momento. Tudo podia ser vingado ou justificado. Ou, então, perdido para sempre, a escoar-se pelo ralo do que podia ter sido.

Mas ele não falhou. E no domingo, com aquele pontapé fulminante, de que só um homem consciente de que o sol poderá não voltar a brilhar é capaz, Stopira vingou-se e justificou uma carreira como tantas outras, feita de incontáveis sacrifícios e escassos prazeres e alcandorou-se, por direito e mérito próprios, às alturas daqueles deuses de um panteão maior. No domingo, ao erguer no Jamor a Taça de Portugal, que lhe foi entregue pelo Presidente da República, Stopira conquistou mais uma nesga de eternidade depois de já ter garantido o apuramento de Cabo Verde para o Mundial.

Não foi só o Torreense que ganhou a Taça. Foram os esquecidos, os sacrificados, os deuses menores da bola.

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