Mikel Arteta a passar ao lado do troféu da Liga dos Campeões na final de Budapeste, após a derrota contra o Paris Saint-Germain
Carl Recine
O Arsenal precisava de umas aulas de Pilates, de umas sessões de ioga, de um retiro espiritual para relaxar os músculos porque joga como um aluno marrão, que sacrifica toda a beleza, toda a fluidez, toda a plasticidade no altar de uma vitória que pode nem chegar
Meus amigos, a cara não engana. Os títulos, as vitórias e até as estatísticas podem enganar, mas a cara revela tudo, mostra os pensamentos ocultos, os sentimentos sepultados lá no fundo da cova. Vi em direto a primeira parte da final da Champions, mas podia ter visto apenas os minutos em que a cara de Mikel Arteta apareceu no ecrã: tensa, angustiada, com aquela ruga de expressão de quem se agarra a um plano como um náufrago se agarra a uma tábua podre. É assim que joga este Arsenal.
Tive de confirmar. Arteta está há sete épocas no Arsenal. Foi contratado para devolver ao clube uma identidade e um estilo que se foram escoando nos últimos anos de insucesso do longuíssimo reinado de Arsène Wenger e para conduzir de novo o Arsenal às grandes conquistas. Ao fim de sete anos, o último objetivo foi alcançado mas, pelo caminho, foi preciso abdicar de quase tudo o que fazia do Arsenal a mais continental – ou mais cruyffiana – das equipas inglesas.
Acredito que, após tantas desilusões e vitórias morais, os adeptos arsenalistas pouco liguem a estas considerações estéticas ou filosóficas. Ganharam o título vinte e dois anos depois, voltaram a uma final da Champions após vinte anos e estiveram a centímetros de a conquistar pela primeira vez. Porém, a imagem que vão guardar deste ano – além dos golos de canto – é a cara de Arteta, torturada, mortificada, o rosto de um homem que parece ao mesmo tempo carrasco e mártir da Santa Inquisição Espanhola.
É assim que eles jogam. A equipa precisava de umas aulas de Pilates, de umas sessões de ioga, de um retiro espiritual para relaxar os músculos porque joga como um aluno marrão, que sacrifica toda a beleza, toda a fluidez, toda a plasticidade no altar de uma vitória que pode nem chegar. Sete anos – número bíblico, número místico – para chegar aqui, a este deserto de criatividade, só tem uma vantagem: o suplício do jejum faz com que um pedaço de pão seco saiba ao mais suculento dos bifes.
Mikel Arteta no centro da roda de jogadores do Arsenal antes de a final da Champions ser decidida nos penáltis
George Wood - UEFA
E o pior é que o Arsenal tem os recursos e os jogadores para fazer muito melhor, para ser mais do que um clube que celebra como génios os seus (extraordinários) defesas centrais e que festeja livres e pontapés de canto com um fervor inexplicável. Ao fim de sete anos de liderança, Arteta construiu um edifício na mais maravilhosa das paisagens naturais. Mas é um edifício sem portas nem janelas, um cubo claustrofóbico, uma trincheira, um bunker. Lá fora há coisas belas a que Arteta teve de renunciar, como os místicos renunciam aos prazeres terrenos.
O resultado é semelhante à célebre descrição que Jorge Valdano fez do jogo entre o Liverpool de Rafa Benítez e o Chelsea de José Mourinho: “una mierda colgada de un palo.” Não é por ter dado a Premier League ao fim de 22 anos que deixa de ser “una mierda colgada de un palo”. Como se viu na final contra o PSG.
Porém, aqui tenho de defender Arteta. A estratégia para a final foi a correta. Não só porque é assim que o Arsenal normalmente joga como era a única forma de tentar bater este PSG, que é tudo menos “mierda colgada de un palo”. Discordo de quem diz – e alguns jogadores do PSG disseram-no – que só uma equipa quis ganhar ou jogou para ganhar. Aliás, se isso fosse verdade, diria que a única equipa que quis ganhar até foi o Arsenal. Quis ganhar e só quis ganhar. Porque não tinha mais nada. Uma vontade férrea de ganhar e um plano rígido quase ao ponto da imobilidade. Tal como se via na expressão facial de Mikel Arteta.
Às vezes nem é preciso olhar para o relvado. A fisionomia basta.