A temporada que agora está prestes a findar foi particularmente exigente para a arbitragem portuguesa.
2025/26 foi uma época marcada por alterações impactantes na dinâmica de trabalho interna e na alteração de paradigma em várias frentes: criação de quadro de vídeo árbitros especializados, mudanças ao nível da observação de árbitros e de VARs, introdução de programa de assessorias nas várias categorias nacionais, entre muitas outras.
Mas ainda que esta fosse apenas uma temporada sem grandes mudanças, estamos cientes que esta atividade é sensível e carrega sobre si todos os holofotes. Sabemos também que essa exposição cria uma tendência natural para hiperdimensionar: uma análise a um lance na área pode passar despercebida em determinado contexto de jogo ou ser absolutamente devastadora noutro.
Quem arbitra, quem dirige arbitragem e quem acompanha o setor de forma quotidiana sabe que esses são danos colaterais inevitáveis num universo tão apaixonante e intenso.
Parece-me no entanto redutor olhar para esta época apenas pela lente da dificuldade ou da forma como a arbitragem é percecionada no exterior. Períodos mais exigentes não devem assustar, mas ajudar a filtrar aquilo que, dentro dos descontos da espuma emocional, faz sentido questionar. A evolução a sério faz-se quando há humildade para abrir a mente à crítica e à transformação.
Há opiniões que podem ser incómodas, mas que são fundamentais para o processo de crescimento. Nenhuma organização credivel evoluiu sem capacidade autocrítica ou a noção de que coexiste num sistema onde as vozes dos outros também contam.
A arbitragem, como qualquer outra atividade, deve abraçar esse exercício com compromisso e responsabilidade.
No meio disto tudo, importa reforçar uma ideia importante: o trabalho deve ser feito de dentro para fora e nunca ao contrário. A qualidade dos árbitros não nasce aos domingos, nos jogos de maior visibilidade ou nos clássicos mais mediáticos. Constrói-se muito antes, na base, nos jogos de formação, nos distritais e regionais, no recrutamento, acompanhamento e retenção dos mais novos.
Se queremos melhores arbitragens no futuro, precisamos de mais árbitros no presente. Precisamos de quadros mais robustos. A quantidade, só por si, não resolve mas permite um filtro diferenciado na hora de escolher.
O ingresso na elite pressupõe mais do que o mero domínio das regras. Pressupõe que se tenha perfil. E esse consegue-se aprimorando, além das técnicas, competências como liderança, comunicação, gestão emocional, tomada de decisão e interação com os demais agentes desportivos.
O futebol muda todos os dias. E a arbitragem deve acompanhar essa mudança com inteligência, proximidade e visão.
O esforço deste lado exige esforço do outro: os árbitros não são um elemento estranho à indústria; são parte integrante da sua credibilidade, parte inevitável da sua existência. Devem ser respeitados como tal.
Isso não significa ausência de crítica - pelo contrário -, apenas a noção de que, no jogo, todas as funções são nobres. Ninguém ganha quando divergências técnicas naturais transformam-se em suspeição reiteradas ou em ataques direcionadas. Perde o futebol, perde o adepto, perdemos todos.
A próxima época está já ao virar da esquina e trará, como as anteriores, novos desafios para os árbitros portugueses. Sentir essa pressão não é um problema, é um privilégio que nem todos se dão ao luxo de usufruir. Tempos difíceis, se enfrentados com humildade, não enfraquecem ninguém: são o mote para que crescimento seja cada vez mais forte e sustentado.
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