Estou em Cabo Verde, ilha de Santiago, na marcante cidade do Tarrafal, utilizada como sede de uma das mais terríveis prisões políticas por parte do Governo colonialista de Salazar - o Campo de Concentração do Tarrafal. Na segunda-feira assistirei à estreia da seleção de Cabo Verde no Mundial 2026, no dificílimo jogo com a congénere espanhola, junto dos habitantes da cidade de Tarrafal.
É só futebol, não é assim tão importante.
Cabo Verde tem qualidade individual como nunca, e já não é uma seleção de jogadores amadores. Aqui, hoje em dia, as crianças querem ser como o Vozinha, Stopira, Jovane, ou como o “Pico” (Roberto Lopes). Já não estão apenas ligadas ao futebol pelo sucesso dos mais conceituados astros internacionais porque sentem, pelo apuramento para o Campeonato do Mundo, que também para eles é possível ter sucesso. Que o sucesso é palpável e está mesmo ali ao lado. Essas referências criam esperança e esta é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento da seleção no futuro.
Com a primeira presença no Mundial de futebol, e vários jogadores a entrar em campo em bons campeonatos da Europa, não se joga só o presente. A febre não vai terminar com a retirada das bandeiras dos carros que aqui fazem furor (como Portugal em 2004 com as bandeiras nas janelas). Quase todos os carros carregam bandeiras como adereço (uma ou duas) e a união à volta da equipa está vincada neste pequeno simbolismo, mas sobretudo na comunicação constante de todos sobre o feito dos Tubarões Azuis - estão todos ansiosos com a estreia.
Independentemente dos resultados, esta geração de jogadores vai e já está a deixar lastro. Há uma crença generalizada nos miúdos e graúdos que ser jogador de futebol profissional é uma realidade também para os cabo-verdianos, e esta é a melhor mensagem de hoje para hoje e também para amanhã.
Quando se diz que “é só futebol, não é assim tão importante”, eu concordo. Estou de acordo com o ser só futebol. Discordo que a possibilidade de se transformar num motor social para milhares, neste caso, e milhões (pensando no passado da modalidade em todo o mundo) não seja importante.
Acalentar e concretizar o sonho de uma vida melhor, por meio do futebol, que pode ter impacto em várias das gerações seguintes; com isso também ajudar a melhorar as condições do país para que no futuro todos tenham mais qualquer coisa no que diz respeito a ter uma vida melhor; aceito que seja só futebol, talvez tenha, porém, a sua importância.
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