Os Campeonatos do Mundo sempre foram palco de grandes histórias ao longo das últimas décadas. Mas são também, muitas vezes, o primeiro grande laboratório onde o futebol testa aquilo que pretende ser no futuro.
O Mundial de 2026 não é exceção à regra.
Desta vez, estão a ser estreadas (e aplicadas) várias alterações às Leis do Jogo aprovadas pelo IFAB, para a Época 2026/27. O objetivo é muito claro: proteger o tempo útil, reduzir interrupções artificiais e aumentar a justiça material das decisões dos árbitros.
É uma mudança de paradigma, sobretudo porque já se percebeu que o número de infrações assinaladas em cada partida pesa, mas não é - nem de longe, nem de perto - o primeiro dos motivos a destruir a fluidez de jogo.
Neste caso nem se trata de reinventar o futebol.
Trata-se de tentar corrigir comportamentos que, ao longo dos anos, foram deformando o espetáculo. E a verdade é que, até agora, já vimos nesta competição vários exemplos práticos de como se deve começar a construir a casa.
A primeira e talvez mais visível das mudanças é a nova contagem de cinco segundos para reposições demoradas nos lançamentos laterais e pontapés de baliza.
A lógica aí é simples: se uma equipa deliberadamente atrasa o recomeço, o árbitro faz contagem visual. Se o tempo expirar, perde a posse, concedendo-a ao adversário.
Fácil. Funcional. Eficaz.
Durante décadas, o futebol conviveu com segundos preciosos desperdiçados em gestos aparentemente insignificantes: bolas demoradas nas reposições, caminhadas encenadas, pausas estratégicas para ajeitar a meia ou as caneleiras. Individualmente pareciam sempre pouco, mas todas somadas retiram minutos inteiros aos jogos.
Era aí que o futebol moderno precisava de coragem: não bastava compensar o tempo perdido, quando a irritação do adversário e a quebra do ímpeto já tinha feito o seu papel; era necessário proteger o jogo enquanto ele acontecia. Em tempo real.
Outra novidade importante é a recomendação VAR em segundos cartões amarelos claramente errados.
Esta alteração era necessária.
Até agora, um erro de análise numa segunda advertência errada ficava fora do radar do VAR. Agora não e ainda bem: uma expulsão injusta que a tecnologia deteta, não pode ser negligenciada pela vídeo arbitragem.
Mas até agora, o momento mais discutível deste Mundial aconteceu precisamente numa zona cinzenta da nova redação do texto das leis:
- No jogo entre EUA e Paraguai, o árbitro neerlandês mostrou inicialmente o cartão amarelo a Tim Ream, por falta sobre Miguel Almirón, mas só depois do jogo recomeçar é que o VAR interveio por alegada “identidade errada”. Após revisão, Ream viu o amarelo retirado e Almirón foi advertido por simulação.
O desfecho foi justíssimo. O processo é que levantou questões, porque ali não houve apenas erro de identidade, houve mudança da própria natureza da infração. E isso expôs como algumas alterações legais, ainda que bem-intencionadas, precisam de maturação interpretativa.
Aliás, neste caso, a FIFA acabou por clarificar rapidamente este enquadramento: intervenção e decisão disciplinar correta (mas o jogo devia ter recomeçado com bola ao solo).
No início de cada época, leis novas testam-se e afinam-se, tal como aquela que agora prevê a possibilidade de se corrigir pontapés de canto indevidamente assinalados.
É outra mudança discreta, mas relevante, onde a tecnologia pode fazer o seu papel com rapidez e eficácia.
Quem está no futebol sabe que um canto mal assinalado pode decidir jogos. Os golos de bola parada nascem muitas vezes de erros aparentemente menor. Lembrem-se: o problema nunca é o erro em si, mas a sua consequência.
A novidade aqui é pragmática: só pode haver correção imediata via VAR se isso não atrasar o recomeço. Se o canto for executado rapidamente, segue jogo (e fé em Deus).
João Pinheiro assinalou pontapé de canto (corretamente), corrigindo depois a sua decisão para fora de jogo, por indicação do seu VAR. Decisão justíssima - a irregularidade anterior existiu mesmo -, mas outra em que valerá a pena perceber ouvir o que esclarece a FIFA sobre esta alteração.
É, como sempre, equilíbrio puro entre justiça e legalidade. Entre acerto e fluidez.
O futebol não pode viver refém da obsessão pela perfeição absoluta, mas também não pode continuar a aceitar erros corrigíveis ou comportamentos claramente antidesportivos em nome da tradição e da emoção. Não agora, onde o produto é mais, muito mais do que meramente desportivo.
No fundo, as leis mudam para proteger uma algo essencial: o jogo, o jogador, o espetáculo.
Se todos estiverem alinhados nesse objetivo, a coisa só pode melhorar.