• Suécia
    18:0020 JUN
    5
    1
    Grupo F
  • Opinião

    O Mundial 2026 e a (nova) velocidade do julgamento

    O Mundial 2026 e a (nova) velocidade do julgamento

    Duarte Gomes

    Ex-árbitro FIFA

    Em vários jogos deste Mundial assistimos a decisões que, ainda que tecnicamente defensáveis, geraram divisão entre adeptos, comentadores de arbitragem e analistas. Curiosamente, nenhuma dessas divergências resultou de falta de imagens ou ausência de meios tecnológicos, mas de algo mais simples e rudimentar: diferentes opiniões sobre o mesmo lance

    Basta olhar para o atual Campeonato do Mundo para perceber uma evidência cada vez mais difícil de contestar nos dias de hoje: o futebol mudou muito nos últimos anos. Está cada vez mais rápido, intenso, físico e, em muitos momentos até, vertiginoso.

    O espaço para jogar é menor, o tempo para decidir é mais curto e a margem de erro afunila-se a cada época que passa.

    Mas talvez a maior transformação, a mais profunda e visível, não esteja dentro do terreno das quatro linhas. O jogo evoluiu, é certo, mas o que realmente mudou nos últimos anos foi a forma como o analisamos e julgamos.

    Por força do escrutínio visual milimétrico, fruto de um sofisticação tecnológica cada vez mais imparável, os lances são expostos para o exterior de um forma muito diferente daquela que são percecionados, em campo, por árbitros, jogadores e adeptos.

    No Mundial, por exemplo, as dezenas de câmaras em cada partida, os múltiplos ângulos de análise e as sucessivas repetições em velocidades alternadas, expõem uma realidade impossível de detetar a olho nu.

    Em poucos segundos, milhões de adeptos em todo o mundo observam, comentam, criticam e claro, sentenciam.

    As redes sociais amplificam reações instantâneas, com meias verdades e meias mentiras. Os programas televisivos desmontam lances ao frame. A discussão inicia e prolonga-se com base numa perspetiva que só tem quem não pagou bilhete.

    E o VAR, ferramenta de correção fundamental e uma das mais felizes formas de apoio à decisão jamais implementada no jogo, passou também a alimentar essa perceção coletiva: a de que, com tecnologia, toda e qualquer decisão tinha obrigação de ser perfeita.

    Na minha opinião, que valerá tanto como qualquer outra, é aqui, é precisamente aqui, que mora um dos maiores equívocos do futebol moderno: a tecnologia aproxima-nos da precisão factual, mas nunca vai eliminar a interpretação humana e isso são coisas diferentes.

    Há decisões objetivas, em que ele é extraordinariamente eficaz, elevando significativamente a capacidade de decisão. Mas o futebol vive, muitas vezes, de zonas cinzentas. As tais que o mundo não gosta que se verbalize, mas que existem há décadas e sempre foram o Calcanhar de Aquiles do homem que decide, remata, defende ou treina. E é precisamente dessas zonas, inevitáveis enquanto o homo sapiens andar lá dentro, que continuam a nascer as maiores discussões em torno do jogo.

    A intensidade dos contactos, a imprudência das entradas, a legitimidade ou ilegalidade das cargas, a interpretação da bola que vai à mão ou da mão que vai à bola, a influência posicional de um jogador sobre o adversário, a queda que foi inevitável ou simulada, enfim, há dezenas e dezenas de áreas limite, em que a mais perfeita e evoluída das tecnologias jamais conseguirá clarificar.

    A imagem mostra, mas será sempre o homem a interpretá-la e isso implica conhecimento técnico, contexto, sensibilidade, experiência, critério e domínio das múltiplas variáveis inerentes ao comportamento humano.

    Este Campeonato do Mundo tem sido particularmente interessante também por isso.

    Em vários jogos, assistimos a decisões que, ainda que tecnicamente defensáveis, geraram divisão entre adeptos, comentadores de arbitragem e analistas.

    Curiosamente, nenhuma dessas divergências resultou de falta de imagens ou ausência de meios tecnológicos, mas de algo mais simples e rudimentar: diferentes opiniões sobre o mesmo lance.

    Era interessante pensarmos um pouco sobre isto.

    Vivemos numa era paradoxal, onde a informação parece excessiva. Nunca como agora usufruimos de tantas ferramentas para dissecar o jogo, mas a verdade é que a intolerância perante a dúvida parece agora mais extremada do que nunca.

    Queremos respostas inequivocas para lances que, pela sua natureza, nunca serão absolutos. Exigimos certezas irrefutáveis para situações onde a interpretação continuará a existir. Insistimos em tentar transformar o futebol numa ciência exata, que nunca será.

    Este jogo tem, no seu ADN, um mecanismo de resistência para permanecer emotivo, porque gravita num território onde coexistem centímetros e emoções, objetividade e dúvida, cálculo e intuição. E isso não é necessariamente mau. Faz parte da sua riqueza, da sua beleza.

    O erro continuará a existir e a ser protagonizado por todos os agentes do jogo. A discordância também. E nem o recurso às melhores ferramentas do planeta abolirá esse espaço de discussão.

    Talvez a maior lição deste Mundial seja precisamente esta: o jogo acelerou, mas o julgamento sobre ele acelerou ainda mais. E a este ritmo vertiginoso, corremos o risco de perder algo essencial: a capacidade de parar, observar e aceitar que, neste espetáculo, nem tudo cabe numa resposta imediata e definitiva.

    Ainda bem.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt