Basta olhar para o atual Campeonato do Mundo para perceber uma evidência cada vez mais difícil de contestar nos dias de hoje: o futebol mudou muito nos últimos anos. Está cada vez mais rápido, intenso, físico e, em muitos momentos até, vertiginoso.
O espaço para jogar é menor, o tempo para decidir é mais curto e a margem de erro afunila-se a cada época que passa.
Mas talvez a maior transformação, a mais profunda e visível, não esteja dentro do terreno das quatro linhas. O jogo evoluiu, é certo, mas o que realmente mudou nos últimos anos foi a forma como o analisamos e julgamos.
Por força do escrutínio visual milimétrico, fruto de um sofisticação tecnológica cada vez mais imparável, os lances são expostos para o exterior de um forma muito diferente daquela que são percecionados, em campo, por árbitros, jogadores e adeptos.
No Mundial, por exemplo, as dezenas de câmaras em cada partida, os múltiplos ângulos de análise e as sucessivas repetições em velocidades alternadas, expõem uma realidade impossível de detetar a olho nu.
Em poucos segundos, milhões de adeptos em todo o mundo observam, comentam, criticam e claro, sentenciam.
As redes sociais amplificam reações instantâneas, com meias verdades e meias mentiras. Os programas televisivos desmontam lances ao frame. A discussão inicia e prolonga-se com base numa perspetiva que só tem quem não pagou bilhete.
E o VAR, ferramenta de correção fundamental e uma das mais felizes formas de apoio à decisão jamais implementada no jogo, passou também a alimentar essa perceção coletiva: a de que, com tecnologia, toda e qualquer decisão tinha obrigação de ser perfeita.
Na minha opinião, que valerá tanto como qualquer outra, é aqui, é precisamente aqui, que mora um dos maiores equívocos do futebol moderno: a tecnologia aproxima-nos da precisão factual, mas nunca vai eliminar a interpretação humana e isso são coisas diferentes.
Há decisões objetivas, em que ele é extraordinariamente eficaz, elevando significativamente a capacidade de decisão. Mas o futebol vive, muitas vezes, de zonas cinzentas. As tais que o mundo não gosta que se verbalize, mas que existem há décadas e sempre foram o Calcanhar de Aquiles do homem que decide, remata, defende ou treina. E é precisamente dessas zonas, inevitáveis enquanto o homo sapiens andar lá dentro, que continuam a nascer as maiores discussões em torno do jogo.
A intensidade dos contactos, a imprudência das entradas, a legitimidade ou ilegalidade das cargas, a interpretação da bola que vai à mão ou da mão que vai à bola, a influência posicional de um jogador sobre o adversário, a queda que foi inevitável ou simulada, enfim, há dezenas e dezenas de áreas limite, em que a mais perfeita e evoluída das tecnologias jamais conseguirá clarificar.
A imagem mostra, mas será sempre o homem a interpretá-la e isso implica conhecimento técnico, contexto, sensibilidade, experiência, critério e domínio das múltiplas variáveis inerentes ao comportamento humano.
Este Campeonato do Mundo tem sido particularmente interessante também por isso.
Em vários jogos, assistimos a decisões que, ainda que tecnicamente defensáveis, geraram divisão entre adeptos, comentadores de arbitragem e analistas.
Curiosamente, nenhuma dessas divergências resultou de falta de imagens ou ausência de meios tecnológicos, mas de algo mais simples e rudimentar: diferentes opiniões sobre o mesmo lance.
Era interessante pensarmos um pouco sobre isto.
Vivemos numa era paradoxal, onde a informação parece excessiva. Nunca como agora usufruimos de tantas ferramentas para dissecar o jogo, mas a verdade é que a intolerância perante a dúvida parece agora mais extremada do que nunca.
Queremos respostas inequivocas para lances que, pela sua natureza, nunca serão absolutos. Exigimos certezas irrefutáveis para situações onde a interpretação continuará a existir. Insistimos em tentar transformar o futebol numa ciência exata, que nunca será.
Este jogo tem, no seu ADN, um mecanismo de resistência para permanecer emotivo, porque gravita num território onde coexistem centímetros e emoções, objetividade e dúvida, cálculo e intuição. E isso não é necessariamente mau. Faz parte da sua riqueza, da sua beleza.
O erro continuará a existir e a ser protagonizado por todos os agentes do jogo. A discordância também. E nem o recurso às melhores ferramentas do planeta abolirá esse espaço de discussão.
Talvez a maior lição deste Mundial seja precisamente esta: o jogo acelerou, mas o julgamento sobre ele acelerou ainda mais. E a este ritmo vertiginoso, corremos o risco de perder algo essencial: a capacidade de parar, observar e aceitar que, neste espetáculo, nem tudo cabe numa resposta imediata e definitiva.