A corrida pela notícia
Ninguém duvida que é nessa pressão constante que o jornalismo evolui e distingue-se, mas o problema nasce quando a urgência prevalece sobre o rigor


Ex-árbitro FIFA
Ninguém duvida que é nessa pressão constante que o jornalismo evolui e distingue-se, mas o problema nasce quando a urgência prevalece sobre o rigor
Mantenho uma imagem romântica do jornalismo, que insiste em resistir ao tempo: a do repórter que procura a verdade, confirma os factos, protege as fontes e entrega ao público informação credível, contextualizada e útil.
Essa imagem continua a existir nos dias que correm (felizmente), mas convive com outra, mais exigente e veloz, imposta por um mercado onde tempo é dinheiro.
Há muito que os meios de comunicação social - não apenas os nossos - disputam a atenção diária de um público inundado de estímulos. Também por isso, a concorrência ultrapassou a fronteira dos jornais, rádios e televisões, passando a competir agora com plataformas digitais, redes sociais, criadores de conteúdos e algoritmos.
A tendência atual é premiar a velocidade primeiro e a informação depois.
Quando surge uma notícia impactante, capaz de gerar audiências ou tráfego lucrativo, inicia-se uma corrida frenética. A bomba cai e exige confirmação rápida, noção do alcance potencial, busca por novas fontes, antecipação de desenvolvimentos, análise variada, detalhes diferenciadores. Tudo o que possa valer um exclusivo, um fator extra, um furo.
Ninguém duvida que é nessa pressão constante que o jornalismo evolui e distingue-se, mas o problema nasce quando a urgência prevalece sobre o rigor.
Neste contexto nem é sempre é fácil resistir à tentação de publicar primeiro e confirmar depois. Nem sempre é fácil ver onde termina a interpretação e começa a especulação.
Mas é precisamente aí, nesse dilema entre noticiar e vender, que reside uma das maiores responsabilidades do jornalismo moderno: o de manter a sua própria identidade, o que, diga-se de passagem, dá muito trabalho.
A identidade, tal como a credibilidade, constroem-se lentamente, com paciência e consistência, mas podem perder-se num instante. Basta uma informação incompleta, um contexto insuficiente ou uma conclusão precipitada, para que se multipliquem perceções erradas, difíceis de se corrigirem mais tarde.
No meio desse frenesim, importa também reconhecer que nem toda a informação disponível publicamente é (ou deve ser) notícia. Nem toda merece ser publicada. Existem limites éticos que nasceram para proteger as pessoas, as instituições, as investigações e o interesse público. O direito de informar nunca deixou de coexistir com o dever de se ponderar racionalmente as consequências do que se divulga, até porque o percurso da notícia não termina quando se publica.
É a partir daí que entram em campo comentadores, analistas e opinion makers, chamados a enquadrar acontecimentos, a explicar contextos e a ajudar o público a compreender realidades por vezes complexas ou obscuras.
O seu contributo, é bom referi-lo, pode ser extraordinariamente valioso: a experiência e conhecimento técnico pode transformar uma sucessão de factos numa leitura informada e esclarecida. Quando exercido com independência e sentido de responsabilidade, o comentário público esclarece e aproxima o cidadão da compreensão dos acontecimentos.
Mas quando a opinião pessoal se antecipa aos factos, quando a visão parcial prevalece sobre a evidência ou quando a necessidade de auto-promoção supera a prudência, o comentário deixa de esclarecer e passa a desinformar.
É uma fronteira subtil, mas decisiva.
Quem comunica regularmente em espaço público sabe que as palavras raramente ficam confinadas a esse momento. Elas multiplicam-se nas redes sociais, são reproduzidas em títulos, transformadas em excertos e, tantas vezes, desligadas do contexto inicial.
A velocidade de circulação supera a da reflexão.
Talvez por ser assim seja cada vez mais importante distinguir informação de interpretação. Ambas são necessárias e têm lugar numa sociedade democrática, mas cumprem funções diferentes e exigem responsabilidades distintas.
Ao mesmo tempo, seria injusto dissociar desta realidade as enormes dificuldades que os meios de comunicação enfrentam atualmente. A quebra de receitas tradicionais, a fragmentação de audiências e a transformação dos hábitos de consumo, obrigam-nos a ter que fazer mais com menos.
A pressão económica existe, é real e influencia ativamente a forma como o mercado funciona.
Apesar disso, continua a existir jornalismo de grande qualidade: reportagens profundas, investigações rigorosas, entrevistas esclarecedoras e, acima de tudo, profissionais de mão cheia, que escolhem o caminho da confirmação e da responsabilidade, em detrimento de outros mais questionáveis.
Num mundo onde quase tudo circula a velocidades impossíveis de acompanhar, continua a haver um valor que não pode ser acelerado: o da credibilidade. E talvez seja esse o ativo mais valioso de quem informa e escolhe colocar a verdade antes da urgência.
Não é para quem quer. É só para quem pode.
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt
