Opinião

O Mundial 2026 e uma arbitragem cada vez mais preparada

O Mundial 2026 e uma arbitragem cada vez mais preparada

Duarte Gomes

Ex-árbitro FIFA

A tecnologia atingiu um grau de maturidade tão elevado que reduziu significativamente o número de erros objetivos. E, por isso, o Campeonato do Mundo voltou a confirmar uma realidade importante: o árbitro moderno, o verdadeiro árbitro de elite, deve ser, mais do que um especialista em leis de jogo, um gestor de pessoas e contextos

Terminou mais um Campeonato do Mundo de futebol.

Na memória ficarão vencedores e vencidos, golos bonitos e falhanços inexplicáveis, surpresas e desilusões, heróis improváveis e momentos de magia pura. O habitual numa competição cada vez mais transversal e heterogénea.

Mas na memória ficará também um conjunto de sinais sobre a evolução da arbitragem internacional. Alguns positivos, outros merecedores de reflexão.

A tentação, nestes balanços, é contabilizar erros, elencar rankings e perceber quem foi mais beneficiado ou prejudicado.

Percebe-se a tentação, que me parece redundante.

O número de penáltis por assinalar, os foras de jogo corrigidos pelo VAR, os cartões por exibir ou os tacles mal avaliados são dados relevantes sob o ponto de vista técnico, mas insuficientes num contexto tão impactante como este.

A este nível, a arbitragem não se mede apenas pelo número de decisões corretas, mas pela habilidade de gerir egos, controlar emoções, interpretar diferentes culturas futebolísticas e adaptar-se a jogos cada vez mais rápidos, físicos e escrutinados.

Nesse aspeto, o Campeonato do Mundo voltou a confirmar uma realidade importante: o árbitro moderno, o verdadeiro árbitro de elite, deve ser, mais do que um especialista em leis de jogo, um gestor de pessoas e contextos.

A tecnologia atingiu um grau de maturidade tão elevado que reduziu significativamente o número de erros objetivos. Felizmente (digo eu), continua a existir um território onde nenhuma inovação tecnológica substituirá o julgamento humano. A subjetividade que o jogo oferece impede que o que é interpretativo passe a ser carimbado como factual. E é precisamente nessa franja de incerteza que se distinguem os bons dos excelentes.

A outro nível, foi também interessante observar a forma como a FIFA selecionou os seus árbitros ao longo da competição.

Permanecer na reta final da prova nunca é resultado do acaso. É consequência direta de cuidadas avaliações técnicas, da consistência demonstrada ao longo da competição, da preparação física apurada, da estabilidade emocional e da confiança conquistada junto de quem nomeia.

É neste contexto que importa destacar, com justiça, o percurso de João Pinheiro e da sua equipa.

O mais cotado árbitro português da atualidade dirigiu três jogos (incluindo um da fase a eliminar) e permaneceu no grupo restrito mantido até ao final.

Antes, muitos dos seus colegas - alguns deles de reconhecida qualidade mundial - regressaram aos seus países. Porquê? Por razões maioritariamente técnicas, mas também estratégicas ou decorrentes de regras de elegibilidade, em função das seleções que se mantiveram em prova.

Esse facto constitui um reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo internacional português ao longo dos últimos anos.

A permanência em prova não significa que João Pinheiro tenha sido perfeito. Significa que, a um nível tão elevado e exposto como este, a competência constrói-se com regularidade, discrição e consistência.

Tal como a UEFA, também a FIFA procura árbitros previsíveis na aplicação de critérios, equilibrados na gestão disciplinar, afastados de protagonismo negativo e capazes de manter o mesmo padrão competitivo, independentemente da dimensão ou mediatismo do jogo.

Naturalmente que este Mundial suscitou alguma discussão em termos técnicos, algo inevitável tendo em conta a importância e o número de partidas disputadas num período de tempo tão curto. Mas convém sublinhar que as maiores controvérsias não foram de foro técnico, mas político.

Em termos de arbitragem, a grande conclusão que se pode retirar deste Mundial é que, atualmente, os árbitros de topo estão mais preparados do que nunca. Chegam a estas competições fortes fisicamente, tecnicamente habilitados e psicologicamente preparados. Isso acontece porque têm plena noção de que o futebol nunca foi tão exigente como agora.

O ritmo aumentou, a pressão mediática multiplicou-se, a tecnologia escrutina ao centímetro e milhões de pessoas formam opiniões instantâneas baseadas em imagens quase sempre percecionadas de forma emocional.

Neste contexto, a excelência já não se mede por tentar acertar sempre, mas por reduzir a margem de erro, decidir com coerência e transmitir confiança.

Na prática, as mesmas características que definem o quilate de qualquer jogador ou treinador de elite.

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