No futebol, as leis do jogo não mudam apenas quando o IFAB aprova uma nova redação. Muitas vezes, a realidade do jogo e o seu contexto obrigam a esclarecer o verdadeiro alcance daquilo que se pretendeu mudar ao introduzir novas regras.
Foi exatamente isso que aconteceu nos últimos dias.
Um episódio ocorrido no Campeonato do Mundo de 2026, envolvendo a equipa de arbitragem liderada pelo português João Pinheiro, deu origem a um esclarecimento do IFAB sobre a utilização do protocolo VAR em situações de “identidade errada”
Para o adepto comum, poderia parecer uma discussão técnica, uma interpretação de uns e de outros sobre a mesma alteração. Mas na verdade, foi um excelente exemplo de como o futebol moderno vive numa tensão permanente entre a procura pela verdade desportiva e o respeito pelos limites da própria lei.
À primeira vista, a situação pareceu contraditória. Como pode uma decisão ser considerada correta no contexto de uma competição organizada pela FIFA e, dias mais tarde, surgir um esclarecimento do International Board a sugerir que o protocolo não permite aquela intervenção?
A resposta é menos paradoxal do que parece.
A arbitragem vive, cada vez mais, entre dois planos distintos: o da letra e do espírito da lei.
Quem analisou o lance em questão percebeu facilmente a intenção da equipa de arbitragem: o árbitro procurou impedir que uma simulação evidente produzisse uma consequência desportiva injusta. A FIFA validou a opção e o futebol entendeu e aplaudiu. E, sob esse ponto de vista, a decisão aproximou o jogo da verdade desportiva. Foi materialmente justa.
Mas, infelizmente, há uma diferença essencial entre chegar à decisão justa e alcançá-la através do mecanismo legalmente idealizado para o efeito. Foi precisamente aí que residiu a importância deste esclarecimento do IFAB, que a própria UEFA já acolheu para as suas competições.
No fundo, a explicação dada clarifica que o protocolo atual permite identificar (corrigir) o autor de uma infração, mas não permite transformar uma infração inexistente numa infração disciplinar diferente.
A distinção parece subtil, mas não é, porque garante que o VAR continue a atuar dentro dos limites para os quais foi concebido, preservando a previsibilidade e a segurança jurídica da competição.
Este episódio ensina-nos que, no futebol contemporâneo, a tecnologia é fundamental mas, quanto maior e mais apurada for, maior será a obrigação de definir, com rigor, onde, quando e como deve intervir.
Se não for assim, corremos o risco de substituir a aplicação da lei pela interpretação circunstancial daquilo que, a cada momento, nos parece ser o mais justo. Seria um caminho perigoso, apesar de bem intencionado.
Talvez seja essa a maior lição deste episódio.
O caso não fragilizou João Pinheiro nem colocou em causa a competência da sua equipa de arbitragem. Pelo contrário.
Mas expôs um desafio que o futebol terá inevitavelmente de enfrentar: o de haver momentos em que a evolução do jogo corre mais depressa do que a evolução das suas leis.
Nesses momentos, esclarecer também é legislar. Porque, no futebol como em qualquer outro domínio da justiça, não basta decidir bem. É preciso decidir bem pelas razões certas, através dos mecanismos certos.
Só assim as decisões mantêm aquilo que verdadeiramente lhes confere valor: a sua legitimidade.