Opinião

A comunidade do futebol deixou de confiar em Infantino e no desporto a confiança continua a ser o capital mais precioso

A comunidade do futebol deixou de confiar em Infantino e no desporto a confiança continua a ser o capital mais precioso

Duarte Gomes

Ex-árbitro FIFA

Uma parcela significativa da comunidade futebolística deixou de confiar no seu líder e na forma como algumas decisões são pensadas, concebidas e executadas. E esse, só por si só, é já um problema de dimensão sistémica

A controvérsia que envolve a atual liderança da FIFA ultrapassa a discussão sobre projeto financeiro, modelo de investimento ou opção de governance. O que está verdadeiramente em causa é algo mais difícil de mensurar e, por isso, incomparavelmente mais valioso: a confiança.



Como é público, as críticas a Gianni Infantino multiplicaram-se a partir de vários quadrantes.



Independentemente do desfecho, das explicações prestadas ou do que venha a ser apurado, há um dado que me parece incontornável: uma parcela significativa da comunidade futebolística deixou de confiar no seu líder e na forma como algumas decisões são pensadas, concebidas e executadas. E esse, só por si só, é já um problema de dimensão sistémica.



Atualmente, para que se possa questionar a permanência de alguém em cargo de poder, há a exigência de prova provada, decisão transitada em julgado ou condenação formal. No plano estritamente jurídico, o entendimento é legítimo e, em boa verdade, o único que faz sentido num estado de direito democrático.



Mas as instituições mais nobres sustentam-se, sobretudo, com base em valores maiores.



Nenhuma organização preserva a sua autoridade quando aqueles que com ela colaboram passam a duvidar da integridade de quem a lidera, da transparência de processos ou da boa-fé das decisões. A confiança institucional não se decreta por estatuto nem resulta de qualquer norma regulamentar. Ela edifica-se ao longo do tempo pelo património de credibilidade acumulado, pela clareza e coerência das ações tomadas. É por isso que crises como esta instalam-se rapidamente.

Nascem quando se insinua a dúvida, quando as explicações deixam de convencer, quando a argumentação é incongruente, quando o volume de perguntas supera o nível de esclarecimentos prestados.



Haverá quem interprete o ato de abandonar uma instituição como uma forma de deslealdade. Acho exatamente o contrário: lealdade não se confunde com dever de permanência, mas com a coragem em não normalizar o que se considera ser, no mínimo, imoral.

Virar a cara para o lado, manter o estatuto, o vencimento mensal ou as regalias conquistadas, pode até ser confortável para alguns, mas felizmente não é para todos.



A este nível, a verdadeira lealdade tem que ser constante e mútua. Tem que prestar-se aos princípios que fundamentam as relações e a própria instituição.



As organizações verdadeiramente sólidas compreendem essa distinção e é por isso que não exigem fidelidades cegas. Valorizam antes a integridade intelectual, a coragem moral e o sentido de responsabilidade. A coerência entre o que se diz e o que se faz.



Quem escolhe afastar-se por não reconhecer esses valores nos seus pares ou na instituição que serve, não o faz por achar que detém a verdade absoluta, mas porque aquilo que viu, ouviu e sentiu foi mais do que suficiente para perceber que deixou de servir a mesma causa.



Não se trata de juízo de condenação, mas de um exercício elementar: a recusa em permanecer num lugar onde a consciência não encontra sossego.



No desporto como na política, no meio empresarial ou no espaço público, a confiança continua a ser o capital mais precioso de qualquer liderança e de qualquer relação pessoal. Uma instituição pode sobreviver a erros de palmatória e a derrotas duríssimas, mas sucumbirá sempre a suspeitas persistentes, sobretudo quando recaem no mesmo denominador comum.



Em boa verdade, o presidente de uma instituição como a FIFA nunca cairá no dia em que a sua sentença for conhecida, mas quando aqueles que viajam ao seu lado deixam de acreditar no seu projeto, na sua visão e, sobretudo, nas suas intenções.



Se Infantino resistir, nunca sairá vencedor. Será apenas mais um derrotado em funções.

Até ao dia.

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