O que leva os clubes, ano após ano, a investirem tanto na comunicação em relação às arbitragens?
Istvan Kovacs, árbitro romeno, a mostrar um cartão vermelho durante um jogo da Liga dos Campeões em 2024
David Ramos
Falar sobre arbitragens é uma forma de marcar território, transmitindo que o clube está atento, que acompanha, que reage quando se sente beliscado e que nunca deixará sem resposta o que prejudica os seus interesses. Num ambiente tão competitivo como este, o silêncio será sempre interpretado como fraqueza. Mas este tipo de posicionamento também serve a massa adepta - e a criação de uma narrativa é algo muito poderoso em comunicação
A arbitragem continua a ocupar espaço importante na comunicação dos clubes.
Muda a época, mudam os protagonistas, mas o essencial mantém-se. Talvez por isso seja interessante perceber o porquê. O que leva os clubes a entrarem por esta via, repetidamente, ano após ano? Porque investem tanto na comunicação em relação às arbitragens? O que esperam ganhar com isso?
A resposta parece-me mais ou menos óbvia: posicionamento.
Mas posicionamento perante quem? Bem, para começar, perante os adversários.
Falar sobre arbitragens é uma forma de marcar território, transmitindo que o clube está atento, que acompanha, que reage quando se sente beliscado e que nunca deixará sem resposta o que prejudica os seus interesses. Num ambiente tão competitivo como este, o silêncio será sempre interpretado como fraqueza.
Mas o posicionamento também serve a massa adepta.
Comunicar significa representar. Afirmar para dentro. O clube quer que os seus adeptos saibam que sente o que eles sentem e que defenderá sempre aquilo que querem ver defendido. Para isso, recorre a um dos elementos mais agregadores desta indústria: a sensação de injustiça. Poucas coisas unem tanto uma comunidade como a convicção de que foi lesada.
Há ainda a questão do posicionamento perante a arbitragem.
Seria injusto concluir que cada crítica pretende condicionar quem arbitra o jogo seguinte, mas a verdade é que, não raras vezes, a estratégia passa por colocar árbitros, decisões, critérios e padrões de atuação no centro da discussão. A mensagem instala-se, é disseminada pelas vias possíveis (são cada vez mais), criando perceções públicas difíceis de contrariar.
Convém não esquecer também o posicionamento perante as instituições que gerem o futebol.
Quando se fala para fora sobre arbitragem, os organizadores das competições também recebem o recado. Percebem a insatisfação “dos clientes“, o seu desagrado e aquilo que, em nome disso, estão dispostos a fazer para “repôr justiça“.
Como se percebe, a criação de uma narrativa é algo muito poderoso em comunicação.
Reparem: há várias formas de falar sobre uma derrota ou fase má. Pode discutir-se o desempenho da equipa, a qualidade ou opções do treinador, o nível dos jogadores ou até as decisões dos dirigentes. Mas discutir a justiça de um penálti ou de um cartão vermelho em determinado jogo tem um impacto diferente, porque mexe numa variável humana muito sensível.
Quando a arbitragem domina a conversa, todos os outros temas perdem espaço. É a vitória da emoção sobre a razão.
Ora, nada disto significa que as críticas aos árbitros, à sua competência ou decisões sejam desprovidas de fundamento. Muitas são legítimas e necessárias. Uma arbitragem saudável tem que saber conviver com escrutínio e contraditório, mal seria. O problema começa quando deixa de se falar disso pontualmente para se criar um discurso constante, tantas vezes orientado para alvos bem definidos.
Não deixa de ser engraçado o paradoxo que esta estratégia cria: é bem provável que existam clubes que não saibam até que ponto esta opção produz efeitos. O que sabem é que alguns dos seus adversários recorrem sistematicamente a ela, o que cria a convicção de que quem não fala fica para trás.
A repetição destas manifestações de opinião - convenhamos, legitimadas por quem pouco faz para as contrariar - fragiliza não só a arbitragem, como as instituições e a competição que todos deviam defender e valorizar.
A médio prazo, não serve a ninguém. Pior. Fragiliza quem recorre sistematicamente à sua prática, pela razão mais básica de todas: o erro que hoje se denuncia nunca é diferente daquele que ontem beneficiou.
E é também aí, nesse esquecimento (in)voluntário, que o argumento morre e a moral escorre pelo ralo.