Com o início da época e o mercado de transferências em curso, há jogadores a mudar de clube, de equipa técnica e, por vezes, de posição. Uma transferência altera o contexto em que um futebolista treina, compete e recupera. O que importa saber é se essa alteração se traduz, de facto, num aumento do risco de lesão.
O que muda é objetivável: a estrutura da semana, os minutos de competição, a exigência da função tática e, com frequência, a própria posição. A estes fatores somam-se viagens, sono, alimentação e tipo de piso. Tudo isto modifica a exposição do jogador, tanto na carga externa como na resposta interna a essa carga.
O problema é que o tecido não acompanha o ritmo do calendário. Após um novo estímulo, músculo e tendão entram numa fase de remodelação nas primeiras 24 a 72 horas, mas as alterações mecânicas com significado clínico levam semanas a meses a instalar-se. Daí que as primeiras seis a doze semanas devam ser tratadas como um período de progressão controlada e de verificação da tolerância individual.
A evidência direta sobre a relação entre mudança de clube e risco de lesão é escassa. O único estudo desenhado para responder a esta questão acompanhou 25 jogadores transferidos para um clube da Ligue 1 ao longo de oito épocas e não encontrou diferença significativa face aos jogadores já do plantel: 8,6 contra 9,0 lesões por cada mil horas de exposição. Sendo um estudo de clube único e com uma amostra reduzida, a leitura correta é de incerteza, não de segurança demonstrada.
Também uma mudança de equipa técnica pode alterar a exigência física. Um estudo realizado com jogadores de elite encontrou variações na corrida de alta velocidade e no sprint perante diferentes regimes técnicos, mas não avaliou a ocorrência de lesões. Já num estudo dos clubes de elite da UEFA, com 14 clubes e 42 épocas-equipa, a troca apenas do treinador não se associou a um aumento significativo da carga de lesão nos isquiotibiais. A entrada de um novo responsável de performance associou-se, contudo, a mais 63% de dias de ausência, a de um novo médico-chefe a mais 81%, e a combinação de treinador novo com preparador físico por si trazido a mais 276%. Estes resultados são ao nível da equipa, pelo que não permitem estabelecer causalidade.
Há ainda uma variável que acompanha o jogador independentemente do clube: o historial clínico. A sua transmissão ganha particular importância numa transferência, já que a mobilidade pode fragmentar a informação entre sistemas de registo. A permanência prolongada num clube permite acumular anos de dados sobre resposta à carga, recuperação e sinais precoces de sobrecarga.
O calendário é outro fator. Jogos com quatro ou menos dias de recuperação associaram-se a um risco 32% superior de lesão muscular face a intervalos de seis ou mais dias, um dado particularmente relevante quando um reforço entra a meio da época, sem margem de progressão e num período de elevada exigência competitiva.
Por fim, nenhuma transferência acontece ao acaso. Idade, disponibilidade, historial, valor de mercado e urgência competitiva influenciam simultaneamente a contratação e o risco de lesão subsequente. É o chamado confundimento por indicação.
Uma transferência, por si só, não demonstrou aumentar o risco de lesão. O que muda é o contexto de exposição do jogador. Quando um reforço se lesiona pouco depois de chegar, a proximidade temporal não basta para estabelecer uma relação de causa e efeito. A obrigação clínica é investigar o caso concreto, considerando os fatores que mudaram com a transferência, e não confirmar a explicação que já circula.
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