Opinião

O espírito de classe que existia entre os árbitros perdeu alguma força nos últimos tempos

O espírito de classe que existia entre os árbitros perdeu alguma força nos últimos tempos

Duarte Gomes

Ex-árbitro FIFA

Durante muitos anos, os árbitros reuniram-se, discutiram, reivindicaram e procuraram melhorar as condições em que exerciam a sua atividade. Muitas vezes fizeram-no via APAF, outras diretamente junto dos seus responsáveis. Houve até momentos em que levámos preocupações a responsáveis governamentais. Hoje o problema surge quando aquilo que foi conquistado no passado passa a ser confundido com aquilo que está assegurado no presente

Tento sempre resistir à tentação de dizer no meu tempo é que era bom. Penso que não é justo para aqueles que são de eras diferentes.

Quando fui árbitro tínhamos outras limitações, cometíamos os mesmos (ou mais) erros e trabalhávamos num futebol que, em muitos aspetos, estava mais atrasado do que o atual. Também por isso não sou entusiasta de discursos saudosistas nem da ideia de que as gerações anteriores eram melhores do que as atuais.

Mas há uma coisa que guardo com orgulho desse tempo: o espírito de classe que existia entre os árbitros. Não falo de corporativismo no sentido mais pobre. Falo de consciência coletiva.

Durante muitos anos, os árbitros reuniram-se, discutiram, reivindicaram e procuraram melhorar as condições em que exerciam a sua atividade. Muitas vezes fizeram-no via APAF (Associação Portuguesa de Árbitros Profissionais), outras diretamente junto dos seus responsáveis. Houve até momentos em que levámos preocupações a responsáveis governamentais (aconteceu quando, por exemplo, esteve em causa a nossa segurança ou a das nossas famílias).

Nem todas as batalhas foram sobre dinheiro. Falava-se sobretudo de condições de treino e de assistência médica, de fisioterapia e de equipamentos, de viagens e seguros, de alojamentos e projeção de carreira, de preparação física e de acompanhamento técnico. Falava-se de avanços que hoje, por estarem minimamente assegurados, parecem naturais.

A maioria dessas conquistas aconteceu devido à insistência, ao diálogo e à perseverança de muitos árbitros. Houve momentos em que foi preciso negociar, ceder e esperar e houve outros em que foi preciso dizer não, ser intransigente e não desviar um milímetro do caminho traçado.

Recordo-me de que vivemos intensamente essa fase. Se calhar mais do que devíamos, face à responsabilidade maior que tínhamos.

Nessa altura, a maioria de nós - de geografias, sensibilidades e personalidades distintas - discutia arbitragem bem para lá das quatro linhas. Fizemos dezenas e dezenas de reuniões que demoravam horas a fio e que nos obrigavam a deslocações demoradas. Mas no fim havia sempre fumo branco. Discutíamos, votávamos e fazíamos. Todos envolvidos, todos a participar, todos pela classe.

Sabíamos que éramos competidores em campo, queríamos as melhores nomeações e classificações, mas nunca ultrapassámos a fronteira que punha em causa a dignidade da função. Nunca confundimos ambição pessoal com o que achávamos ser o melhor para o grupo.

Talvez seja precisamente aqui que valha a pena fazer uma reflexão comparativa.

Penso que parte desse espírito perdeu alguma força nestes tempos. Isso não significa que os árbitros de hoje sejam menos solidários, corajosos ou interessados na classe. Nada disso. Significa apenas que nasceram e cresceram numa realidade diferente. Significa que pertencem a outra geração, formada noutro contexto social e cultural.

O problema surge quando aquilo que foi conquistado no passado passa a ser confundido com aquilo que está assegurado no presente. Nada está verdadeiramente garantido numa atividade como esta.

Acho que o verdadeiro espírito de classe não pode servir apenas para reivindicar aumentos ou melhores condições materiais. Serve para isso e para proteger carreiras, para defender melhores meios e condições de formação, exigir mais ética e respeito institucional, uma liderança transparente, genuína e presente. A dar a cara, a mostrar o que pretende. Serve para salvaguardar o futuro, para projetar o que se fará depois de se pendurar o apito.

O desafio atual não é recuperar o passado, mas encontrar uma nova forma de reconstruir esse sentimento coletivo perdido num tempo em que tudo é cada vez mais difícil de pensar e fazer.

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