Roberta Picchi, jogadora do Como, tem cancro da mama. Mal soube, o clube renovou-lhe o contrato: quando Roberta deixou de lhe ser útil
Roberto Picchi, avançada italiana do Como
Como 1907
Habitualmente, as pessoas tendem a ser valorizadas pela dimensão da sua utilidade: tens mais valor se fores útil, tens menos se não fores. No futebol isso é particularmente evidente: o jogador vale enquanto produz; o guarda-redes enquanto defende; o treinador enquanto ganha; o árbitro enquanto arbitra. Ao fazer aquilo que não era obrigado a fazer, o Como teve um ato exemplar
Roberta Picchi tem 34 anos, é avançada do Como 1907 e, na época passada, ajudou a sua equipa a chegar à primeira categoria do futebol italiano (feminino). Mas a felicidade dessa conquista bateu de frente numa notícia terrível, que receberia pouco depois: o diagnóstico de um carcinoma da mama.
Assim que tomou conhecimento da situação, o Como anunciou que a sua estrutura médica acompanharia de perto a atleta, em articulação com as equipas responsáveis pelo seu tratamento. Além disso, disponibilizou-se para lhe oferecer apoio permanente. A ela e à sua família.
Um gesto bonito, mas expectável. Pouco depois, sim, a decisão transformadora: a comunicação oficial de que o contrato da atleta seria renovado até ao final da época 2027/28.
É precisamente sobre isto que gostaria que refletissemos um pouco.
Habitualmente, as pessoas tendem a ser valorizadas pela dimensão da sua utilidade: tens mais valor se fores útil, tens menos se não fores. No futebol isso é particularmente evidente: o jogador vale enquanto produz; o guarda-redes enquanto defende; o treinador enquanto ganha; o dirigente enquanto apresenta resultados; o árbitro enquanto arbitra.
Quando estamos em cima, em posições de destaque ou de influência, nunca falta atenção, nunca faltam pessoas por perto. A coisa muda de figura quando descemos, quando falhamos, quando saímos ou perdemos. É aí, nessa alteração de circunstâncias, que o verdadeiro teste começa. É aí que percebemos quem fica e quem vai. Quem estava e quem nunca esteve.
Avançada italiana esteve na subida do Como à Serie A feminina
A decisão do Como 1907 tem mérito por contrariar literalmente essa tendência: surgiu precisamente no momento em que Roberta deixou de lhes oferecer aquilo que motivou a sua contratação. Surgiu quando Roberta deixou de lhes ser útil.
Não é líquido se a italiana regressará ao ativo, mas isso não é o mais importante aqui. O que é digno de registo é que, quando a parada subiu, a sua entidade patronal optou por garantir-lhe paz e segurança, em vez de a presentear com meia dúzia de publicações fofinhas online.
Há momentos em que as pessoas não precisam de mimos nem de palmadinhas nas costas. Precisam de ações.
Não tenho dúvidas que, para Roberta, esta extensão de contrato vale mais do que qualquer manifestação pública de apoio ou de solidariedade.
Pessoalmente, confesso-vos: são gestos como este que me devolvem a fé na humanidade.
A distinção entre apregoar e praticar valores está cada vez mais esbatida. Atualmente a moda é falar em pessoas, família, lealdade, respeito e humanidade, sem que isso tenha qualquer substância na prática. É pena. Esses são valores que só têm relevância quando se materalizam em gestos concretos. Ser leal quando a lealdade beneficia é fácil. Caminhar ao lado de quem tem poder e estatuto, também. Difícil é ficar quando não há nada para receber em troca.
Uma ressalva importante: esta medida exemplar não pressupõe que todas as empresas tenham obrigatoriamente de renovar contratos em circunstâncias mais emocionais ou de maior fragilidade. Há contextos e contextos. Todas as situações exigem análise casuística. Mas há uma diferença substancial entre gerir com responsabilidade e gerir de forma desumanizada.
Algures pelo meio mora uma coisa chamada “cultura“. E, para mim, a cultura de uma instituição nunca é aquilo que ela propagandeia sobre si própria ou sobre o que ambiciona, mas sobre aquilo que faz quando não é obrigada a fazer.
O Como 1907 percebeu isso, somou pontos e saiu em grande, quando o mais fácil era fazer o oposto.