Há quem tenha especial vocação para emergir quando a atualidade gira em torno de temas mais quentes, sobretudo se relacionados com círculos de poder, influências, exposição pública ou interesses questionáveis. E o futebol, pelas suas caraterísticas ímpares, é terreno que lhes garante o protagonismo que tanto anseiam.
Duas dessas personagens têm chamado à atenção nos últimos tempos: os “Guardiões do Templo” e os “Profissionais da Indignação”.
Vamos por partes. Os primeiros estão, por natureza, bem tipificados: entram em campo sempre que surge uma informação mais incómoda ou quando alguém decide romper com determinada forma de ser e de estar. Para eles, o importante não é refletir sobre o que aconteceu, mas questionar a credibilidade de quem tomou a decisão. É uma técnica antiga, que tenta fragilizar o mensageiro, quando a força da mensagem parece inequívoca.
O que os move? Bem, muitas coisas. Nem todos defendem necessariamente uma pessoa. Muitas vezes protegem apenas um sistema do qual fazem parte, uma relação que lhes convém, uma ligação proveitosa ou segredos que não querem ver expostos. Outras procuram manter acesso valioso, que não se querem dar ao luxo de perder. E, às vezes, tentam apenas defender a narrativa que criaram na sua cabeça, sem que o ego lhes permita depois admitir que talvez estivessem errados.
O modus operandi mais comum é o da insinuação. O recurso a meias verdades ou a episódios laterais convenientemente manietados também é comum. Nos casos mais sofisticados, a estratégia nem é acusar ninguém diretamente, mas semear a dúvida de quem está apenas preocupado em apurar a verdade dos factos.
Habitualmente têm dois grandes objetivos: um mais estratégico (manter o templo intacto, obviamente), outro egocentrado (evitar cair no esquecimento do espaço público). Têm no entanto algo em comum: a tendência de analisar os outros à sua própria imagem.
Claro que questionar quem se demarca é legítimo e necessário. A credibilidade das fontes importa e ninguém deve passar certificados automáticos de verdade só porque alguém decidiu avançar. Mas, para os “Guardiões do Templo”, esse escrutínio geralmente não serve para testar factos, mas para evitar que sejam comprovados.
Depois há uma segunda espécie, aparentemente oposta à primeira: a dos “Profissionais da Indignação”. Esses vivem num estado permanente de insurreição. São antissistema. Acham que dizem o que ninguém tem coragem de dizer. Dizem-se desalinhados e têm orgulho nisso. Sublinham até à exaustão a sua seriedade, porque isso é fundamental para o seu equilíbrio mental. Alegam não ter medo de nada nem de ninguém e insistem que nunca se deixaram condicionador ou comprometer. Usam a guerrilha como forma de comunicação, o ataque como manifestação de opinião. Têm necessidade patológica de afirmar repetidamente a sua honestidade.
Há neles uma construção extraordinária: a de se apresentarem como bastiões da integridade, o último reduto da independência, sem perceberem que há uma diferença enorme entre ressentimento e prova de credibilidade.
A realidade é diferente. Falar mais alto não torna ninguém mais verdadeiro. Mostrar ar de zangado não dá seriedade a ninguém. E repetir até à exaustão que nada se teme não demonstra firmeza nem coragem, apenas necessidade de afirmação.
Ser independente é como ser solidário: não se anuncia, pratica-se.
A integridade não precisa de ser capitalizada a cada notícia. Nasce pela coragem em agir e reconhece-se na coerência das posições.
Curiosamente, estas duas personalidades podem parecer incompatíveis - por regra, uns protegem, outros atacam - mas têm alguns pontos em comum: encontram-se quando a defesa de uma causa ou o ataque a alguém deixa de obedecer a factos para obedecer à conveniência. Quando o mensageiro é julgado antes da mensagem. Quando a indignação é seletiva, com alvos bem definidos e momentos de intervenção escolhidos a dedo.
Em boa verdade, ambos são apenas figurantes de um filme que não produziram, realizaram ou protagonizaram e é precisamente por isso que se manifestam. Porque falar será sempre mais fácil do que fazer. Criticar será sempre mais fácil do que intervir.
Quem nasce lagartixa, jamais chegará a jacaré. É a lei da natureza e ninguém tem culpa disso.Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt