A passagem de Frederico Varandas pela presidência do Sporting tem sido marcada por decisões difíceis que colocaram à prova a sua capacidade de liderança. Poucas, no entanto, terão sido tão delicadas como a sucessão de Rúben Amorim.
Após a saída para o Manchester United daquele que considero o maior treinador da história do clube, o Sporting ficou perante um enorme desafio. Amorim saiu depois de quase cinco anos, dois campeonatos nacionais, duas Taças da Liga e uma Supertaça, deixando uma equipa invicta em todas as competições.
A escolha de João Pereira como sucessor criou enormes expectativas, sobretudo depois de Frederico Varandas afirmar que “daqui a quatro ou cinco anos” estaria “num dos mais poderosos da Europa”. A aposta revelou-se um erro, com três vitórias, um empate e quatro derrotas que fizeram o Sporting cair para o segundo lugar de um campeonato que, poucas semanas antes, parecia encaminhado.
A 26 de dezembro de 2024, apenas três dias antes do dérbi frente ao Benfica, Rui Borges foi escolhido para assumir o comando da equipa. A decisão tinha argumentos que a sustentavam. O treinador vinha de uma excelente passagem pelo Vitória de Guimarães, onde conciliou um percurso interno competitivo com uma campanha europeia histórica, deixando a equipa diretamente apurada para os oitavos de final da Conference League e invicta na competição, depois de terminar a fase de liga no segundo lugar, apenas atrás do Chelsea. Perante este contexto, pareceu-me uma escolha sensata.
A verdade é que Rui Borges entrou a sorrir, estreando-se com uma vitória no dérbi e terminando a temporada com a conquista da dobradinha e do bicampeonato. Fê-lo perante uma sucessão de lesões, conseguindo estabilizar emocionalmente a equipa, encontrar soluções na equipa B e preservar, com humildade, várias das ideias deixadas por Amorim, um mérito que deve ser reconhecido.
Nessa mesma época, porém, o Sporting seria eliminado pelo Borussia Dortmund no play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. Perante as opções tomadas nessa eliminatória, Frederico Varandas justificou a gestão do plantel recordando que o “principal objetivo” era o campeonato, uma declaração que considero importante reter para a posterior avaliação do trabalho de Rui Borges.
A temporada seguinte seria a verdadeira oportunidade para o treinador implementar o seu estilo de jogo e construir uma equipa à sua imagem. O Sporting investiu cerca de 90 milhões de euros, manteve grande parte da base bicampeã e reforçou praticamente todos os setores. Entre as várias contratações, considero que Luis Suárez, Rui Silva e Alisson Santos foram aquelas que verdadeiramente acrescentaram qualidade. Este último acabaria por ser transferido para o Nápoles numa operação financeiramente interessante para abrir espaço a Souleymane Faye, uma aposta que, na minha opinião, se revelou um falhanço e acabou por prejudicar desportivamente a equipa.
Na sua primeira época completa, Rui Borges terminou o campeonato no segundo lugar com 82 pontos. Não considero que o Sporting tenha de ser campeão todos os anos e reconheço novamente o impacto das lesões. Ainda assim, depois do investimento realizado e partindo de uma base bicampeã, esperava uma equipa mais preparada para responder às adversidades e, sobretudo, mais afirmativa nos momentos decisivos.
É precisamente aí que encontro uma das maiores fragilidades deste Sporting. Nos dez jogos para o campeonato frente a Benfica, FC Porto e SC Braga durante as épocas de 2024/25 e 2025/26, Rui Borges venceu apenas um, precisamente o dérbi da sua estreia. O balanço de uma vitória, sete empates e duas derrotas significa que se seguiram nove confrontos consecutivos frente a estes três adversários sem qualquer triunfo, um registo que me parece demasiado negativo para uma equipa que ambicionava conquistar o tricampeonato.
Mais do que os resultados, preocupa-me a postura demonstrada em alguns desses encontros. Na Pedreira, por exemplo, o Sporting teve apenas 28% de posse de bola durante toda a segunda parte, entregou a iniciativa ao adversário e acabou por permitir o empate. Não exijo que o Sporting domine todos os grandes jogos, mas espero que uma equipa com estas ambições seja capaz de se impor com maior regularidade perante os seus principais adversários.
Nas restantes competições também surgiram motivos para preocupação. Depois do mérito na conquista da Taça de Portugal em 2024/25, a temporada seguinte começou com uma derrota frente ao Benfica na Supertaça. Na Taça de Portugal, o Sporting precisou de prolongamento para eliminar o Santa Clara, num encontro marcado por um penálti polémico, antes de perder a final frente ao Torreense, então no segundo escalão, naquela que considero a derrota mais difícil de explicar da história do clube.
É neste contexto que uma decisão de Frederico Varandas merece particular atenção. Perto do final da temporada, depois dos empates frente ao AVS, fora, e ao Tondela, em Alvalade — duas equipas que acabariam despromovidas —, resultados que colocaram sob forte pressão o segundo lugar e o consequente acesso à Liga dos Campeões, a Direção decidiu renovar com Rui Borges. Numa altura em que a contestação em torno do rendimento da equipa já era evidente, o treinador viu o contrato prolongado e o vencimento praticamente duplicado.
É também aqui que recupero as palavras do Presidente depois da eliminação frente ao Dortmund. Se o campeonato era o “principal objetivo”, parece-me legítimo questionar que esse critério seja posteriormente relativizado através da valorização do percurso de Rui Borges na Liga dos Campeões. O mérito europeu existe e deve ser reconhecido, mas não pode retirar peso à avaliação interna quando foi o próprio Presidente a estabelecer publicamente essa prioridade.
A confiança não ficou pela renovação. Para 2026/27, o Sporting avançou para uma profunda reestruturação do plantel depois da saída de várias figuras importantes e investiu cerca de 123,28 milhões de euros só no mercado de verão. Rodrigo Zalazar tornou-se, por 30 milhões, a contratação mais cara da história do clube, num mercado que trouxe ainda jogadores como Ibrahima Ba, Issa Doumbia, Sergi Altimira e Nestory Irankunda.
Ao fim de sete jornadas, o Sporting já consentiu três empates, frente a Estrela da Amadora, Famalicão e Arouca, e sofreu oito golos. Para colocar este último número em perspetiva, são apenas menos dez do que os 18 sofridos pelo FC Porto durante todo o campeonato anterior, em que se sagrou campeão.
Para além dos resultados, sinto uma clara falta de liderança e dificuldades no enquadramento de algumas das novas peças. Issa Doumbia tem sido utilizado numa posição demasiado recuada para aquilo que considero serem as suas melhores características, enquanto Zalazar é, na minha opinião, um jogador essencialmente vertical, que procura acelerar, romper linhas e chegar a zonas de finalização, características que não o tornam num verdadeiro número 10. São opções que me fazem questionar se Rui Borges está a conseguir retirar o melhor rendimento dos importantes investimentos realizados pelo clube.
É demasiado cedo para sentenciar uma temporada ou os próprios reforços, mas não para reconhecer sinais preocupantes. No campeonato anterior, a vantagem do FC Porto começou precisamente a ser construída depois da vitória por 2-1 em Alvalade, num encontro em que, na minha opinião, o Sporting foi claramente inferior. Foi a partir desse momento que os portistas começaram a criar uma distância que viria a revelar-se determinante na luta pelo título. Esta época começa a apresentar contornos preocupantemente semelhantes, uma vez que, ao fim de sete jornadas, o Sporting já perdeu seis pontos em empates e encontra-se a seis da liderança.
É perante este cenário que recupero outra declaração de Frederico Varandas. O Presidente afirmou que “nunca esteve sequer em causa o lugar de Rui Borges” e que o Sporting não toma decisões com base na contestação, mas através de uma análise “objetiva e racional”. Enquanto sócio, pergunto então onde esteve esse mesmo critério durante a passagem de Marcel Keizer pelo Sporting.
O neerlandês chegou ao clube em novembro de 2018 e encontrou um Sporting ainda profundamente fragilizado pelas consequências de Alcochete. Nessa temporada, o clube investiu cerca de 32,8 milhões de euros e Keizer terminou no terceiro lugar com 74 pontos, conquistando a Taça de Portugal e a Taça da Liga, ambas frente ao FC Porto.
Na época seguinte, depois de um novo investimento de cerca de 32 milhões de euros, acabou despedido após a pesada derrota por 5-0 frente ao Benfica na Supertaça e o desaire por 3-2 diante do Rio Ave, em Alvalade. À quarta jornada do campeonato, contabilizava duas vitórias, um empate e uma derrota.
Naturalmente, os contextos são diferentes e Rui Borges tem o enorme mérito de ter sido campeão, algo que não pretendo diminuir. Mas Keizer conquistou dois troféus em cerca de dez meses, tantos quantos Rui Borges no período aqui analisado, e terminou a sua primeira temporada apenas oito pontos abaixo dos 82 alcançados pelo atual treinador na sua primeira época completa. Fê-lo num Sporting em reconstrução e com condições financeiras substancialmente inferiores, mas uma curta sequência de maus resultados foi suficiente para ditar a sua saída. A derrota por 5-0 frente ao Benfica teve naturalmente um peso enorme, mas parece-me legítimo perguntar se perder uma final da Taça de Portugal frente a uma equipa do segundo escalão não deveria também provocar uma reflexão profunda.
Não defendo decisões precipitadas, até porque Rúben Amorim demonstrou precisamente a importância de dar tempo a um treinador quando existe uma ideia clara, capacidade para desenvolver jogadores e uma evolução percetível da equipa. Na sua primeira temporada completa, o Sporting investiu cerca de 42,85 milhões de euros, mas Amorim não construiu a equipa campeã apenas através do mercado.
Gonçalo Inácio, Nuno Mendes, Tiago Tomás e Matheus Nunes afirmaram-se na equipa principal sob o seu comando, enquanto João Palhinha e Daniel Bragança regressaram dos respetivos empréstimos para ganhar espaço e importância. Amorim encontrou soluções dentro do próprio clube, potenciou jogadores e valorizou ativos, construindo uma equipa campeã com um investimento substancialmente inferior e estabelecendo uma identidade que seria a base do Sporting nos anos seguintes.
Talvez seja precisamente aí que esteja a diferença entre dar tempo por convicção e dar tempo simplesmente porque já se tomou uma decisão.
Silas é outro exemplo de que errar na escolha de um treinador não é novidade nesta Direção. Das quatro verdadeiras apostas feitas por Frederico Varandas — Keizer, Silas, Rúben Amorim e João Pereira —, apenas Amorim acabou por singrar de forma inequívoca e reunir um consenso duradouro no universo leonino. Errar faz parte de qualquer processo de decisão, mas reconhecer quando uma aposta não resultou é igualmente importante.
Portanto, olhando para os resultados, para o investimento realizado, para as exibições nos momentos decisivos e, acima de tudo, para a evolução da equipa, resta-me regressar às próprias palavras do Presidente. Se as decisões no Sporting são realmente tomadas com base numa análise “objetiva e racional”, há uma pergunta que considero inevitável:
Sr. Presidente, não será altura de assumir que, desta vez, a aposta não resultou?