Já nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, em Olímpia, na Grécia, havia a preocupação de assegurar uma igualdade teórica inicial de oportunidades entre todos os atletas concorrentes, e isso implicava o respeito pelas mesmas regras. Todos os atletas treinavam nos dez meses prévios ao evento e todos se apresentavam em Elis, a 57 km de Olímpia, um mês antes dos Jogos, para se submeterem a um controlo conjunto e simultâneo de treino, nas mesmas infraestruturas, com acesso aos mesmos recursos humanos, e enquadrados num mesmo regime alimentar. No fundo, condições iguais para todos, logo na antecâmara do evento desportivo.
No desporto hodierno, subsiste a preocupação com a igualdade de oportunidades, a igualdade de tratamento, o equilíbrio competitivo, a incerteza no resultado. E tal convoca, necessariamente, regras.
Para assegurar a igualdade de oportunidades, começa-se nas regras do jogo – por exemplo 11 jogadores contra 11 – ou nas regras das competições – o mesmo número de jogos para todas as equipas no mesmo campeonato regular, jogando quer em casa quer no campo de cada um dos adversários. Quando a UEFA surgiu com o Fair Play Financeiro, replicado em regras de licenciamento noutras confederações continentais e em federações e ligas nacionais, um dos fitos foi a igualdade de oportunidades: por exemplo, ao não se admitir à competição um clube/uma sociedade desportiva que deva ao fisco, à segurança social, a outros clubes ou aos próprios colaboradores, visa-se evitar a desigualdade que se criaria face aos clubes concorrentes que são cumpridores, porque o incumpridor disporia de mais verbas para despender em jogadores, e assim ganhar vantagem inicial.
Para assegurar a igualdade de oportunidades, as organizações desportivas adotam regras, diferentes regras de elegibilidade, fixando critérios como a idade - por exemplo, só atletas sub-23-; o tamanho – por exemplo atletas com altura máxima de 1,75 cm -; o peso - por exemplo atletas com até 56 quilos - ou o sexo – por exemplo provas apenas para mulheres.
Pela igualdade de oportunidades também se previnem e reprimem flagelos para o desporto como a dopagem, a corrupção, a manipulação de resultados, ou as apostas fraudulentas e antidesportivas. A batota gera vantagem competitiva ilícita.
A igualdade de oportunidades é também o argumento mais utilizado por quem advoga restrições ou proibições à participação de atletas intersexo e transgéneros. É que as regras do desporto, por contraponto às regras que consagram os direitos humanos, colocam limites à universalidade. O desporto competitivo não é um desporto universal, não é um desporto para todos. Mas pretende ser um desporto com igualdade de oportunidades.
É verdade que a igualdade de oportunidades não acaba com as diferenças entre os melhores e os piores atletas, não elimina o fosso entre os clubes mais e menos poderosos, não torna uma seleção com menos meios na melhor seleção do Mundo. Mas abre, de forma equitativa, as chances de cada um ganhar. E é aí que entra um outro princípio basilar da organização desportiva: o princípio do mérito desportivo, também ele ao alcance de todos. Todos têm as mesmas oportunidades de ter uma melhor performance que os adversários. Todos têm a mesma chance de mostrar talento, sacrifício, de procurar a sorte, de tentar a surpresa, de superar os favoritos, de fazer história, de ser o David a vencer o Golias. Nem que dure um só minuto, um só jogo, uma só competição. Por isso o Desporto não é uma ciência exata, por isso tanto público pelo Mundo fora se emociona e interessa pelo Desporto. Tudo pode acontecer a todos. As regras estão lá, são conhecidas. Mas os resultados, à partida, são, por natureza, desconhecidos, incertos. Como quando a magia acontece.
Ora foi mesmo magia que aconteceu quando a seleção nacional de futebol de Cabo Verde, em igualdade de oportunidades com a seleção de Espanha, agarrou a sua oportunidade, desafiou todas as probabilidades e alcançou um empate histórico no Mundial. As regras e o contexto deram espaço ao mérito desportivo, naquele momento. Uma seleção e um País em festa. O Mundo, perplexo, a assistir e a aplaudir. E nisto sobressai uma metáfora importante para a Vida: ganha quem no momento concreto é o melhor. Só precisa de ter (igualdade de) oportunidades.