Previsão do Tempo

Flamengo até morrer ou a diferença entre o que se diz e o que se quer dizer

Previsão do Tempo é o nome deste espaço, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto. Esta semana sobre uma canção sobre futebol que não é sobre futebol e que incrivelmente passou no crivo da censura da ditadura militar brasileira

Ouve-se a cuíca, omnipresente no samba, depois o violão e o que se segue chega em forma de confissão de um adepto de futebol do início dos anos 70, sentado num boteco, pela voz de Marcos Valle:

Parece que finalmente resolvemos o dilema

Darío e Doval jogando juntos sem problema

Eu como um prato a menos, trabalho um dia a mais

E junto um trocadinho, p’ra ver o meu Flamengo

Que sorte eu ter nascido no Brasil

Pode-se trocar de tudo, menos de paixão, já lá dizia Sandoval em “O Segredo dos Seus Olhos”. A cuíca continua:

Até o presidente é Flamengo até morrer

E olha que ele é o presidente do país

Rogério na direita, Paulinho na esquerda

Darío no comando e Fio na reserva

E o resto a gente sabe mas não diz

Cantiga tão despudoradamente futeboleira não tinha porque não passar no aparelho de censura da ditadura militar brasileira, que tanto se tinha valido da bola para se mitificar depois do Mundial de 70. E passou mesmo.

Mas bastava talvez ter feito umas perguntinhas para perceber que entre o que se diz e o que se quer dizer há um mar de criatividade. Descendente de alemães e criado nos bairros bem da zona sul do Rio, Marcos Valle não era o mais politizado dos cantores da bossa nova brasileira. Cantava sobre a praia, o sol, a beleza. Até encher o saco. Era botafoguense e talvez fosse esse o primeiro sinal que aquela canção não era uma ode ao maior clube de futebol do país e ao jeitinho brasileiro. Por detrás daquele samba doce e ingénuo estava uma crítica feroz à repressão política e à alienação de uma sociedade adormecida, capaz dos maiores sacrifícios por um bilhete para o Maracanã, mas não para se insurgir contra um regime dado a liberdades mas só na mão de ferro.

Eram os anos de chumbo do governo de Médici, de tortura, perseguições, exílios forçados e morte, da Transamazónica, do desmatamento, do crescimento artificial, os dias do “Brasil, ame-o ou deixe-o!” - o amor incondicional parece encontrar no sangue e no futebol o seu casulo e as ditaduras também o querem para a pátria. Que sorte Marcos Valle ter nascido no Brasil!

Emílio Médici era gaúcho e adepto do Grémio, mas no Rio fez-se flamenguista, o clube mais popular do Brasil, porque os ditadores não são de nuances. Passou a ser presença assídua nos jogos, de rádio a pilhas atrelado à orelha. A canção enganou meio mundo, que viu na letra imberbe uma homenagem ao presidente, ao governo, aos militares, àquele conceito de Brasil. Até académicos mergulharam no equívoco, mesmo com aquela última estrofe:

E o resto é pau, é pedra, águas de março ou de abril

Mas tudo agora é paz, nesse país, nesse Brasil

A gente já cresceu e é tempo de aprender

Que quem nasceu Flamengo é Flamengo até morrer

Dez anos depois do golpe militar, já era tempo de aprender, dizia Valle. Uma ditadura não muda, nasce mal parida e nunca se endireitará porque tem uma alma intrinsecamente defeituosa. Seria necessária mais uma década para dela o Brasil se livrar. Mesmo trocando as voltas à censura, Marcos Valle partiria para os Estados Unidos pouco depois de lançar “Flamengo até Morrer”.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião sobre os planetas que gravitam em torno do desporto, roubado também despudoradamente ao álbum de Marcos Valle de 1973 que abre com “Flamengo até Morrer”

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