“Heated Rivalry”, um milagre no gelo e um puck direitinho ao poste
A seleção norte-americana de hóquei no gelo desbaratou uma oportunidade em dia de glória e preferiu rir de uma piada misógina de Donald Trump
Jornalista
A seleção norte-americana de hóquei no gelo desbaratou uma oportunidade em dia de glória e preferiu rir de uma piada misógina de Donald Trump
Por estes dias não está fácil empatizar com grandes histórias norte-americanas. Mas, por momentos, os Jogos Olímpicos de Inverno reconciliaram-nos com essa ideia, na sua essência muito poderosa, da vontade indómita estadunidense, de que tudo é possível havendo qualquer coisa brotando lá das entranhas, que há de ter nascido do útero das land runs do século XIX.
Em Milão, as equipas femininas e masculinas do hóquei no gelo dos Estados Unidos foram medalha de ouro, ambas por 2-1, ambas com um golo na morte súbita, ambas frente ao Canadá, potência máxima da modalidade. Para os homens, a vitória foi particularmente estrondosa, 46 anos depois do último ouro olímpico, na sequência do Milagre no Gelo, quando uns singelos gaiatos arrebanhados em equipas de ligas inferiores e nos colleges bateram os tanques soviéticos nos Jogos Olímpicos de Lake Placid 1980, dando origem, claro está, a um sem-número de filmes e documentários - ninguém conta a história do underdog como os norte-americanos, talvez por ser uma condição tão estranha para eles.
A vitória dos rapazes norte-americanos banhou-se de boa vontade. Por terem sido dominados pelos favoritos, por terem resistido, por terem ganhado com um golo de um mancebo a quem já faltavam uns quantos dentes da frente. Por, já com as medalhas ao peito, terem trazido para a festa os filhos de Johnny Gaudreau, hóquista que morreu em 2024 atropelado por um automobilista embriagado.
Até que Trump entrou em cena.
Já com o podcaster e conspiracionista tornado, claro, diretor do FBI, Kash Patel, ensopado em cerveja, por querer fazer infantilmente parte da festa, surgiu uma chamada do presidente para os novos heróis. Nela, Trump convidou os campeões olímpicos para estarem presentes no discurso do Estado da União e depois na Casa Branca, perante os urros dos jogadores. A seguir, avisou a rapaziada que teria também de convidar a equipa feminina, como quem lamenta ter de levar atrelado um apêndice chato para o ajuntamento de bros, sob pena de ainda sofrer um impeachment caso não o fizesse. E mais urros e ah-ah-ahs de pândega se seguiram.
Escusado será dizer que os risinhos tontos dos colegas a uma piada ainda mais tonta do presidente não caíram nada bem nas jogadoras norte-americanas, nem em todos os que tinham oferecido a sua benevolência à história escrita pela seleção masculina. A equipa feminina acabou por declinar o convite para visitar a Casa Branca, falando de compromissos académicos e profissionais já tomados (pois, pois), enquanto os rapazes seguiram alegremente na caravana MAGA para Miami, depois para Washington. Um puck enviado violentamente ao poste.
Um par de jogadores, verdade seja dita, já revelaram remorsos e arrependimento pela atitude perante a graçola. Jack Hughes, diga-se também, e ainda antes de toda a arruaça de balneário, confessou que a primeira pessoa que lhe veio à cabeça quando marcou o golo da vitória foi Megan Keller, a jogadora que deu o ouro à equipa feminina. O hoquista dos New Jersey Devils é também um dos únicos jogadores que vocalmente apoiam as iniciativas LGBTQIA+ da NHL, uma liga tradicionalmente conservadora.
Tristemente curioso como toda esta agridoce narrativa acontece em pleno frenesim com a série “Heated Rivalry” (em Portugal transmitida pela HBO Max), a história de dois jogadores de hóquei no gelo que se envolvem numa relação amorosa num ambiente de balneário desportivo em que, todos sabemos, nunca se normalizou que cada um viva livremente sem olhar à orientação sexual. O desporto como pano de fundo não é por acaso.
Os méritos sociológicos da série suplantarão claramente os artísticos, mas isso não é nada de desmerecer, bem antes pelo contrário: “Heated Rivalry” está a fazer o seu papel para que essa normalização aconteça. Até lá, e porque ainda vai demorar, dá a quem cresceu sem se sentir representado nos ecrãs uma história sem os habituais clichés ou estereótipos sobre pessoas que a claque ultra-religiosa e conservadora cada vez mais vocal, cá como lá, quer apagar.
A visibilidade será mesmo o grande mérito de “Heated Rivalry”, o mais eficaz dos combates a certa turba fanfarrónica a quem se dá espaço mediático apesar da extrema crueldade do seu discurso, baseado em fantasias pseudocientíficas. É um puck de empatia, daqueles que abanam as redes.
Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.
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