Previsão do Tempo

Voltar a Boedo

O San Lorenzo foi também uma vítima da ditadura militar argentina. Em 1979, afogado em dívidas e com a arma da expropriação encostada à cabeça, vendeu ao desbarato o terreno onde estava o seu estádio, abandonando o coração do bairro de Boedo. A restituição histórica já foi feita e não faltará tudo para o regresso do Ciclón a casa

Regresso da Argentina poucos dias antes da data que marca o 50 anos do início da ditadura militar do país e poucos dias depois daquela caminhada de uma hora entre os bairros de Boedo e Bajo Flores de Buenos Aires, entre a sede de facto do San Lorenzo e o estádio Pedro Bidegain que, para os adeptos do clube, não passa de uma amálgama de ferro e betão onde, circunstancialmente, a equipa joga a cada quinze dias.

Porque o coração do San Lorenzo ficou lá atrás, em Boedo.

A longa caminhada, mais do que por conveniência, faz-se por fé, entre o urbanismo desordenado desta parte da cidade que se diz “a mais linda do mundo” e o cheiro e som do choripán a chiar na parrilla. Como uma peregrinação sacrificial de quem espera, em breve, não ter de a fazer.

O San Lorenzo foi também, ele próprio, uma vítima da mais perversa ditadura da América do Sul, a que mais matou, mesmo que a Argentina de Milei se tenha metido cruelmente, nos últimos tempos, a discutir números. Em 1979, o Ciclón (como é conhecido, porque o maior rival da cidade é o Huracán e um ciclone causa mais estragos que um furacão), afogado em dívidas, tornou-se presa fácil para os intentos do militar Osvaldo Cacciatore, homem do regime em Buenos Aires. Os terrenos onde se erguia o Viejo Gasómetro, a catedral azulgrana, eram por demais apetecíveis, em plena Avenida La Plata. Sob o pretexto de um reordenamento do território e com a arma da expropriação encostada à cabeça, o San Lorenzo vendeu o lote ao desbarato.

Para os adeptos do clube, desapareceu ali muito mais do que um estádio: o Viejo Gasómetro era o coração do bairro de Boedo, lugar de reunião, de bailes, festas, onde tantos rapazes e raparigas deram os primeiros beijos. Jorge Bergoglio, ainda antes de se tornar bispo de Buenos Aires e depois Papa, era presença habitual.

Marcelo Endelli

Anos depois da cedência forçada, e sem qualquer vestígio de novas avenidas ou parques, os terrenos do número 1700 da Avenida La Plata seriam vendidos à francesa Carrefour por oito vezes o preço pago ao San Lorenzo em 1979. Ali se construiu um gigante supermercado - e em “Futebol ao Sol e à Sombra”, Eduardo Galeano fala de um antigo avançado do Ciclón, Juan Sanfilippo, que julgava ainda ver a baliza do Viejo Gasómetro nas caixas do Carrefour.

No anos 90, ganhou força o movimento de regresso a Boedo e em 2012, ao abrigo da Lei da Restituição Histórica, é reconhecido pela justiça o papel corrupto da ditadura argentina na expropriação do San Lorenzo, obrigando o Carrefour a negociar com o clube a venda dos terrenos, que teriam de voltar para as mãos do clube. Tal aconteceu dois anos depois. Nas ruas do bairro, entre os murais com as cores do San Lorenzo e a memória das suas lendas, festejou-se como se de um título se tratasse. Em 2019, o Carrefour desmantelou finalmente o supermercado.

O regresso ao local de partida está agora dependente do dinheiro que não abunda pelos recantos menos glamourosos de Buenos Aires. Mas talvez em breve o cheiro do choripán em dia de jogo volte a Boedo, tal como as milhares de gargantas que, mesmo no exílio, mesmo nas derrotas mais duras - como foi aquela a que assisti, 5-2 frente ao Defensa y Justicia - não se fecham nem por um segundo no apoio ao San Lorenzo.

O nome do novo estádio, garantem, será Papa Francisco.

Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.

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