Nos primeiros dias da promoção do seu álbum “LUX”, fiquei muito invejosa de Rosalía. Mais do que ciumenta do seu talento e natural capacidade de colocar um pé num ror de géneros - que fiquei, não há como negar -, senti aquela dor de cotovelo fininha e aguda quando a catalã pediu para correr descalça no relvado da Bombonera, em Buenos Aires, e o seu desejo foi concretizado.
Haverá poucas sensações mais indecifravelmente maravilhosas do que pisar o mesmo chão que Diego Maradona tornou pista de dança, tela branca pintada com as cores que invadem as casas do bairro de La Boca. Dias depois de Rosalía correr para a felicidade pela linha de meio-campo da Bombonera, uma espécie de auréola celestial pousou por cima do estádio. Quem é fã da neo-renascentista cantora espanhola viu ali um sinal, uma semelhança com a coroa dourada pintada na nuca que Rosalía envergava na altura.
Os adeptos do Boca Juniors, claro, viram Dios.
Maradona jogou ali pela primeira vez um Clássico frente ao River há precisamente 45 anos. A 10 de abril de 1981, o Boca ganhou por 3-0. O primeiro golo nasceu de uma daquelas jogadas que se tornaram adjetivo, maradoniana dizemos nós hoje, não é? Por alguma razão foi. Diego, vindo há pouco do Argentinos Juniors, agarrou a bola na defesa e bamboleou na cara dos adversários, sendo travado apenas por Fillol, o guarda-redes do River. Na recarga, Brindisi fez o 1-0. Maradona marcaria o 3-0, num lance cheio da magia e da malandrice dengosa de quem conseguia receber a bola com o pé esquerdo e levá-la furtivamente para o pé direito, fintando o guarda-redes no processo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Há umas semanas, soltei mais uns pesos para fazer a visita dita mais longa e completa à Bombonera, na esperança de ser um pouco Rosalía, um pouco Diego, e conseguir pisar aquele relvado. Já nem digo correr, só sentir. Não conseguirei explicar a desilusão quando percebi que o único acesso que teria era a um triste nico de piso sintético que adorna as laterais da relva fresquíssima, acabada de regar. Dei-lhe um beijinho na mesma, como os craques quando se assomam para mais um jogo de vida ou morte, que são todos. Mas o plástico nunca terá o sabor da natureza.
A mágoa ficou esta semana um pouco mais atenuada quando me ri desbragadamente com os registos mais ou menos ilegais que transpiraram da última atuação de Rosalía em Lisboa. Como fui no dia anterior, perdi novo momento de casamento entre Rosalía e o futebol, quando a espanhola convidou Kika Nazareth, brilhante na relva como nos palcos, para o seu confessionário de “perlas”. Recordei logo a seguir a entrevista em que Rosalía, que é muy del Barça, se dizia nostalgicamente fã de Messi, Eto’o e Zinedine Zidane, nos últimos tempos mais de Pedri e Mbappé.
De não entender o apelo do futebol - e de mau gosto futebolístico - não a podem acusar.
Previsão do Tempo é o nome deste espaço de opinião, uma viagem aos planetas que gravitam em torno do desporto.
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